As dunas de um dos destinos turísticos mais famosos do litoral oeste do Ceará escondem um passado surpreendente. Sob a areia da praia de Tatajuba, no município de Camocim, estão enterrados os vestígios de dezenas de casas de pescadores e agricultores de uma comunidade tradicional que foi soterrada por dunas móveis entre as décadas de 1970 e 1980. A região, que hoje integra a Área de Proteção Ambiental (APA) Municipal Tatajuba-Guriú, redefinida em abril de 2026, também faz parte da Rota das Emoções, roteiro turístico que inclui Jericoacoara e o Delta do Parnaíba.
O soterramento da antiga vila
A antiga vila de Tatajuba foi soterrada paulatinamente na década de 1970, pois foi construída no meio do trajeto de dunas móveis, fenômeno natural comum no Ceará, impulsionado pelo vento e pela falta de vegetação. O movimento das areias forçou a população a migrar para áreas vizinhas. Moradores relatam que a igreja foi uma das primeiras construções a ser engolida, seguida pela escola, posto de saúde e dezenas de casas. O pescador João Batista dos Santos, conhecido como Tita, relembra: “Já era uma vila muito grande na época. Era maior do que o antigo Serrote, que hoje é Jericoacoara, famosa internacionalmente. Naquela época já existia igreja, posto policial, colégio, as pessoas estudavam. Os festejos de lá eram os maiores dessa região.”
Formação do atual distrito
Após o soterramento, os moradores buscaram abrigo em comunidades vizinhas, formando o que hoje é o distrito de Tatajuba, reconhecido oficialmente em 12 de novembro de 2025 pela Lei Municipal nº 1716/2025. O território, com mais de cinco mil hectares, é composto por quatro vilas: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco. Apesar da proteção ambiental, a região absorve parte do público e do ritmo da Vila de Jericoacoara, conhecida internacionalmente. Segundo a prefeitura de Camocim, a cidade recebeu 892.251 turistas em 2025. No entanto, moradores temem os efeitos negativos do turismo desenfreado sobre o meio ambiente, a pesca artesanal e a agricultura.
O fenômeno das dunas móveis
As dunas móveis são ecossistemas dinâmicos, comuns na costa semiárida brasileira, especialmente em locais com pouca vegetação. De acordo com o Atlas do Assentamento Estadual e Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Planície Costeira de Tatajuba, desenvolvido pelo professor Jeovah Meireles, da Universidade Federal do Ceará (UFC), as dunas podem migrar de 12 a 30 metros por ano. Em Tatajuba, destaca-se a Duna Encantada, com cerca de 30 metros de altura e 120.000 m² de área, acumulando aproximadamente 140.000.000 m³ de areia. O soterramento ocorreu porque a vila foi instalada na rota natural de migração das dunas, funcionando como uma barreira física. Com o tempo, o acúmulo de areia gerou volume suficiente para soterrar as construções e os poços de água.
Desafios atuais: especulação imobiliária e turismo
Além do soterramento, os moradores enfrentaram outro problema: em 2001, descobriram que o terreno das quatro vilas havia sido comprado por uma grande empresa de turismo, que planejava construir um condomínio ecológico com campos de golfe. A Associação dos Moradores (Acomota) entrou com processos judiciais para interditar construções e anular as matrículas. Em setembro de 2023, o Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará (Idace) e a Defensoria Pública da União (DPU) fecharam acordo para que a maior parte da terra fosse doada ao Idace, ficando sob tutela do Estado. Ainda assim, a região sofre com invasões, degradação e especulação imobiliária. Em fevereiro de 2024, uma operação coordenada derrubou cercas e placas de comercialização irregulares.
Proteção ambiental e sustentabilidade
A APA Municipal Tatajuba-Guriú, com perímetro de 43,97 km, foi redefinida em 15 de abril de 2026 para adequação ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). A lei municipal 1728/2026 estabelece como objetivos assegurar o uso sustentável dos recursos naturais, proteger a diversidade biológica, ordenar a ocupação humana e promover a melhoria da qualidade ambiental. Compete à Autarquia Municipal de Meio Ambiente (AMA) proteger ecossistemas frágeis, disciplinar o uso do solo, conservar recursos hídricos, dunas, restingas e manguezais, compatibilizar atividades econômicas com a conservação, promover educação ambiental e fomentar o turismo sustentável. O procurador-geral de Camocim, Alexandre Maia, afirma que a prefeitura busca conter o avanço desordenado de construções, exigindo licenciamento ambiental para qualquer empreendimento. “Nossa intenção é possibilitar empreendimentos sustentáveis, proteger a comunidade tradicional e fazer o ordenamento urbano”, destaca.
A história de Tatajuba é um exemplo de como a natureza molda o destino das comunidades. A professora de História Sheila Abreu, moradora da vila, ressalta a importância de compreender a mutabilidade do ambiente para evitar danos. “Dentro de uma área onde tudo é transitável, a gente não pode ter uma estrutura rígida, sólida”, conclui.



