Um alerta conjunto das principais sociedades médicas do país coloca em foco uma condição cardíaca que, muitas vezes, age em silêncio, mas prepara o terreno para uma das maiores causas de morte e incapacidade no Brasil: o acidente vascular cerebral (AVC). A fibrilação atrial (FA), hoje a arritmia cardíaca mais comum no mundo, é o tema de um documento recente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac), que buscam conscientizar médicos e população sobre seus perigos.
Uma epidemia silenciosa: os números assustadores
Os dados epidemiológicos revelam uma escalada preocupante. Em 2021, cerca de 52,5 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com fibrilação atrial. Esse número representa um aumento expressivo de 137% em relação a 1990, conforme apontam estudos globais. No Brasil, a realidade segue a mesma tendência de crescimento, impulsionada principalmente pelo envelhecimento da população e pelo aumento da prevalência de fatores de risco.
A condição se caracteriza por um batimento desorganizado, rápido e irregular dos átrios, as câmaras superiores do coração. Em vez de uma contração eficiente, o músculo cardíaco apresenta um movimento de "tremor" ou fibrilação. Essa falha no bombeamento faz com que o sangue possa estagnar e formar coágulos no interior do coração. Quando um desses trombos se desprende e viaja até o cérebro, o resultado é um AVC isquêmico, com potencial para sequelas graves ou morte.
Quem está em risco? Fatores modificáveis e não modificáveis
Compreender quem tem maior probabilidade de desenvolver FA é crucial para a prevenção. Existem fatores intrínsecos, que não podemos alterar, mas que servem como um sinal de alerta para um acompanhamento mais próximo: idade avançada (especialmente acima de 65 anos), sexo masculino e predisposição genética.
No entanto, o grande foco está nos elementos que podem ser controlados. Diversas comorbidades criam um terreno fértil para a arritmia, como hipertensão arterial, diabetes, doenças da tireoide e outras cardiopatias. O controle rigoroso dessas condições é um pilar fundamental para reduzir o risco.
Igualmente importantes são os hábitos de vida. A cardiologista Fatima Dumas Cintra, da Unifesp e ex-presidente da Sobrac, destaca que obesidade, sedentarismo, privação de sono (como na apneia obstrutiva), tabagismo e consumo excessivo de álcool são catalisadores poderosos para o aparecimento da fibrilação atrial. Portanto, investir em atividade física, peso saudável e bons hábitos de sono vai muito além do bem-estar geral; é uma estratégia direta de prevenção cardíaca.
Diagnóstico e tratamento: da identificação ao controle
Um dos grandes desafios da FA é sua natureza capciosa. Enquanto alguns pacientes sentem palpitações, falta de ar, tontura ou cansaço extremo, outros são completamente assintomáticos. É essa ausência de sinais que torna a condição tão perigosa, pois o risco de AVC permanece elevado mesmo sem qualquer sintoma.
O diagnóstico é feito pelo registro do ritmo cardíaco. O eletrocardiograma tradicional é a ferramenta inicial, mas como a arritmia pode ser intermitente, nem sempre ela aparece no momento da consulta. A tecnologia tem sido uma aliada valiosa: smartwatches e dispositivos vestíveis que monitoram o coração ao longo do dia têm ajudado a capturar episódios transitórios, trazendo à tona casos que antes passavam despercebidos.
Uma vez confirmado o diagnóstico, o tratamento se estrutura em três pilares essenciais:
- Prevenção do AVC: Geralmente com o uso de medicamentos anticoagulantes, que reduzem drasticamente a formação dos coágulos perigosos.
- Controle de fatores de risco e comorbidades: Gerenciar pressão arterial, diabetes e adotar um estilo de vida saudável para diminuir a recorrência dos episódios.
- Controle do ritmo cardíaco: Pode envolver medicamentos antiarrítmicos ou procedimentos como a ablação por cateter, técnica minimamente invasiva que cauteriza os pequenos focos no coração que disparam os sinais elétricos irregulares.
Não existe uma abordagem única. A estratégia ideal deve ser construída em parceria entre o médico e o paciente, considerando sintomas, idade, outras doenças existentes e as expectativas de qualidade de vida.
A mensagem final das especialistas é de alerta, mas também de esperança. Com informação clara, diagnóstico precoce e tratamento adequado, a fibrilação atrial deixa de ser uma ameaça invisível e se transforma em uma condição perfeitamente controlável. Trata-se de uma oportunidade concreta de salvar vidas e preservar a saúde de milhões de brasileiros.