A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu um passo significativo no combate ao Alzheimer ao autorizar, nesta quinta-feira, 8 de janeiro de 2026, o uso de mais um medicamento inovador para a doença. Trata-se do lecanemabe, que será comercializado com o nome de Leqembi.
O que é o Leqembi e como ele funciona?
O Leqembi é um anticorpo monoclonal administrado por meio de infusões intravenosas, com duração de cerca de uma hora, a cada duas semanas. Sua ação é direcionada contra a proteína beta-amiloide, cujo acúmulo no cérebro está associado ao desenvolvimento do Alzheimer. O medicamento atua removendo essas estruturas pegajosas, que danificam os neurônios, com o objetivo de retardar a progressão da doença.
É crucial destacar que a terapia não representa uma cura para o Alzheimer, que permanece sendo uma condição neurodegenerativa progressiva. No entanto, ela marca uma mudança de paradigma, pois é uma das primeiras a atacar uma das causas subjacentes da doença, e não apenas seus sintomas.
Para quem é indicado e quais são as restrições?
A aprovação da Anvisa vem com critérios rigorosos. O Leqembi é indicado exclusivamente para pacientes diagnosticados com comprometimento cognitivo leve e demência leve em estágio inicial da doença de Alzheimer. Além disso, é obrigatória a confirmação da presença da proteína beta-amiloide no cérebro, geralmente detectada por um exame do líquido cefalorraquidiano (líquor).
Outra condição importante é que os pacientes elegíveis devem ter uma cópia ou nenhuma cópia do gene ApoE ε4, um fator de risco genético para a doença. Essas restrições estão diretamente ligadas aos riscos do tratamento, que incluem a possibilidade de ocorrência de ARIA (Anormalidades de Imagem Relacionadas à Amiloide).
"O ARIA pode causar inchaço temporário em regiões do cérebro ou pequenos pontos de sangramento", explica o neurologista Paulo Caramelli, professor da UFMG. Por isso, o tratamento exige uma triagem minuciosa, excluindo, por exemplo, pessoas que usam anticoagulantes ou têm histórico de doenças vasculares cerebrais, e um acompanhamento rigoroso com exames de ressonância magnética periódicos.
Um avanço científico confirmado por estudos
A decisão da Anvisa se baseou em um estudo clínico global que envolveu 1.795 participantes com Alzheimer em estágio inicial e presença confirmada de placas amiloides. A pesquisa comparou o grupo tratado com lecanemabe com um grupo que recebeu placebo.
A principal medida de eficácia foi a mudança nos sintomas após 18 meses, avaliada pela escala CDR-SB, que mede o impacto do comprometimento cognitivo na vida diária. Os resultados validaram o efeito do medicamento em desacelerar o declínio.
"Do ponto de vista científico, essas medicações terem demonstrado eficácia em estudos clínicos é um avanço importante, porque baliza e confirma essa proteína amiloide como um alvo terapêutico da doença", afirma o Dr. Caramelli. Ele ressalta que, por ser uma droga de efeito biológico, o Leqembi não provoca melhora sintomática imediata, mas sim uma redução na velocidade de progressão, especialmente na perda de autonomia e nos sintomas cognitivos.
O lecanemabe segue o caminho aberto pelo donanemabe (Kisunla), aprovado pela Anvisa em abril de 2025. Juntos, eles começam a formar um novo arsenal terapêutico para uma doença que, por muitos anos, contou apenas com medicamentos para controle de sintomas, representando uma nova esperança para pacientes e famílias no Brasil.