Exame de sangue brasileiro promete revolucionar diagnóstico precoce do câncer de mama
Imagine poder descobrir se tem câncer de mama apenas com uma pequena amostra de sangue. Essa realidade pode estar mais próxima do que se imagina, graças a uma pesquisa desenvolvida por cientistas brasileiros da Faculdade de Medicina do ABC. O teste, batizado de RosalindTest, utiliza a técnica de biópsia líquida para identificar biomarcadores tumorais no sangue, oferecendo uma alternativa menos invasiva e mais acessível para o rastreamento da doença.
Cenário preocupante no Brasil
O câncer de mama é o terceiro tipo de câncer que mais mata no Brasil, com cerca de 20 mil mulheres perdendo a vida anualmente devido à doença, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Esses números são especialmente alarmantes porque o câncer de mama possui altas taxas de cura quando diagnosticado nas fases iniciais. No entanto, muitas pacientes ainda chegam ao diagnóstico em estágios avançados, comprometendo as chances de tratamento eficaz.
Um dos principais obstáculos é o acesso desigual à mamografia, exame considerado padrão-ouro para detecção da doença. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a oferta desse exame é limitada, especialmente em regiões remotas e na rede pública de saúde. Embora o Ministério da Saúde tenha ampliado o acesso à mamografia para mulheres a partir dos 40 anos em 2025, a doença vem surgindo de forma cada vez mais agressiva em mulheres jovens, faixa etária que não possui rastreamento sistemático.
Como funciona o teste revolucionário
O RosalindTest analisa dois biomarcadores específicos no sangue: HIF-1α e GLUT1. Esses genes apresentam alterações quando células tumorais passam por um processo chamado hipóxia, situação em que o tumor cresce em ambiente com baixo oxigênio. Segundo os pesquisadores, essas alterações podem ser detectadas no sangue antes mesmo de o tumor ser visível em exames de imagem tradicionais.
Nos estudos clínicos iniciais, o teste apresentou impressionantes 95% de acurácia. A proposta é que, uma vez validado, o rastreamento do câncer de mama no Brasil possa seguir um modelo semelhante ao do câncer de próstata, onde exames de sangue já são utilizados como ferramenta complementar.
"A gente não pode impedir que o câncer apareça, mas podemos impedir que ele mate. E se o diagnóstico acontecer no estágio inicial, a gente quer facilitar o acesso e tornar o processo menos prejudicial para a mulher", explica Beatriz Aguiar, pesquisadora envolvida no projeto.
Ampliação do acesso ao diagnóstico
Uma das principais vantagens do teste é sua potencial capacidade de ampliar o acesso ao rastreamento, especialmente em regiões onde a mamografia é de difícil obtenção. Enquanto exames de imagem dependem de equipamentos caros, infraestrutura hospitalar e profissionais especializados, a coleta de sangue pode ser realizada em unidades de saúde básicas ou mesmo em áreas remotas.
Em um projeto-piloto realizado em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), o exame foi aplicado em 600 mulheres que vivem no campo, nos estados de São Paulo e Ceará. Muitas dessas mulheres nunca haviam realizado qualquer tipo de rastreamento para câncer de mama.
Um caso emblemático ocorreu durante a fase de validação: uma paciente apresentou o resultado mais alto já registrado pelos pesquisadores, indicando forte presença de biomarcadores tumorais. Apesar de mamografia e ultrassom terem dado resultados negativos, uma ressonância magnética solicitada devido ao alerta do exame de sangue revelou um tumor em estágio inicial. A paciente foi submetida apenas a intervenção cirúrgica, sem necessidade de quimioterapia ou radioterapia.
Limitações e perspectivas futuras
Especialistas independentes avaliam o projeto como promissor, mas destacam a necessidade de estudos mais amplos para confirmar a eficácia da tecnologia. O mastologista e cirurgião oncológico José Carlos Sadalla observa que os biomarcadores pesquisados podem estar alterados em outros tipos de câncer, não apenas no de mama, o que exigiria maior especificidade do teste.
"É uma pesquisa brasileira e isso é muito positivo. O estudo preliminar é bom, mostra que essas proteínas estão mais aumentadas no câncer do que em pessoas saudáveis, mas ainda foi testado em um número pequeno de pessoas. É uma promessa, então vamos com calma, mas, se funcionar, vai ser um excelente apoio para o rastreamento", pondera Sadalla.
Os pesquisadores enfatizam que o teste seria complementar aos exames de imagem, não um substituto da mamografia. A ideia é que ele ajude o poder público a priorizar pacientes com resultados positivos e amplie a investigação em casos onde exames de imagem são negativos, mas há marcadores tumorais presentes no sangue.
Com projeções indicando que os casos de câncer de mama podem chegar a 3,5 milhões por ano até 2050 globalmente, tecnologias como essa se tornam cada vez mais urgentes para salvar vidas e reduzir as desigualdades no acesso à saúde.
