Prefeito de Rio Branco deixa cargo para mirar o Palácio Rio Branco em 2026
O prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, formalizou nesta quinta-feira, 26 de março, a renúncia ao cargo executivo municipal para se dedicar integralmente à disputa pelo governo do estado do Acre nas eleições de 2026. A decisão foi comunicada oficialmente através de uma carta enviada à Câmara de Vereadores da capital acreana, com efeitos práticos a partir do dia 3 de abril. Com a saída de Bocalom, assume imediatamente o comando da prefeitura o vice-prefeito Alysson Bestene, do Progressistas, que deverá conduzir os destinos da cidade até o final do mandato.
Transição política e justificativa da renúncia
No documento encaminhado ao Legislativo municipal, Tião Bocalom fez um extenso balanço de sua gestão à frente da prefeitura, destacando avanços econômicos e a ampliação de serviços públicos como marcas de seu governo. O prefeito, que recentemente trocou o PL pelo PSDB em cerimônia com o presidente nacional do partido, Aécio Neves, afirmou que a decisão de renunciar foi tomada após profunda reflexão. "Esta decisão é fruto de muita reflexão e do entendimento de que tenho um dever a cumprir com o Estado do Acre", declarou Bocalom, expressando confiança na continuidade administrativa sob a liderança do vice-prefeito.
Tião Bocalom, de 72 anos, natural de Bela Vista do Paraíso no Paraná, possui longa trajetória política no Acre. Ele já foi prefeito de Acrelândia por dois mandatos e meio antes de conquistar a prefeitura de Rio Branco em 2020, quando derrotou a então prefeita Socorro Neri no segundo turno com expressivos 62,93% dos votos válidos. Em outubro de 2024, foi reeleito ainda no primeiro turno com 54,82% dos votos, mantendo Alysson Bestene como vice em sua chapa.
Desafios herdados pela nova administração
A transição de poder ocorre em um momento delicado para a administração municipal, que enfrenta múltiplos desafios estruturais e operacionais. Um dos pontos mais críticos é a crise crônica no transporte coletivo da capital, que se arrasta desde 2020 sem solução definitiva. A empresa Ricco Transportes e Turismo, que opera o sistema através de contratos emergenciais renováveis a cada seis meses, relatou prejuízos milionários – aproximadamente R$ 7 milhões em 2024 e mais de R$ 8 milhões em 2025 – atribuídos aos custos operacionais, quantidade de gratuidades e baixa demanda em determinadas linhas.
Usuários do sistema têm relatado constantemente problemas como:
- Ônibus superlotados especialmente em horários de pico
- Veículos com falhas mecânicas recorrentes
- Longos períodos de espera em bairros periféricos e zona rural
- Paralisações parciais por questões operacionais e atrasos salariais
Em março de 2026, a situação se agravou quando parte das linhas foi paralisada, reduzindo significativamente a frota em circulação. A Justiça do Trabalho precisou intervir, determinando que a empresa não poderia retirar ônibus do estado sem autorização judicial após ação do sindicato que apontou atrasos salariais e pendências com FGTS e INSS.
Programa habitacional sob investigação do Ministério Público
Outro ponto de preocupação é o Programa 1001 Dignidades, iniciativa voltada para a política habitacional municipal que está sob investigação do Ministério Público do Acre desde janeiro deste ano. O MP-AC instaurou inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na execução do programa, com foco em quatro aspectos principais:
- Critérios de seleção dos beneficiários das moradias
- Transparência na aplicação dos recursos públicos envolvidos
- Qualidade estrutural das unidades habitacionais entregues
- Adequação das áreas onde as construções foram realizadas
As investigações buscam verificar especialmente a falta de clareza nos métodos de escolha das famílias contempladas, a previsibilidade das etapas do programa e possíveis falhas estruturais nas moradias já entregues à população.
Crise hídrica e desafios no saneamento básico
A área de saneamento básico representa outro capítulo problemático na gestão municipal. Dados do Instituto Trata Brasil posicionam Rio Branco como a capital brasileira que menos investe por habitante no setor, com reflexos diretos nos baixos índices de acesso à coleta e tratamento de esgoto. Esta realidade se soma aos problemas crônicos no abastecimento de água potável, que dependem de duas estações de tratamento – ETA I e ETA II – ambas com histórico de falhas operacionais.
Em julho de 2024, parte da estrutura da ETA I desabou devido a erosões causadas pela vazante do Rio Acre, afetando o fornecimento para aproximadamente 60% da cidade. Em março de 2025, durante a enchente do mesmo rio, a ETA II apresentou graves problemas quando a força da correnteza danificou uma bomba flutuante, interrompendo a captação de água. A previsão inicial de normalização em 24 horas não se concretizou, prolongando os impactos no abastecimento.
Com as duas estações comprometidas simultaneamente, o sistema de abastecimento chegou a colapsar, deixando cerca de 300 mil moradores sem água em diferentes regiões da cidade. A retomada ocorreu de forma parcial e gradual, com cerca de 67% da capacidade operacional restabelecida inicialmente, mas alguns bairros continuaram enfrentando desabastecimento nos dias seguintes.
Diante da crise hídrica, o governo federal anunciou o envio de R$ 9,5 milhões para aquisição de bombas centrífugas, somando-se a quase R$ 17 milhões já destinados em dezembro de 2024 para reconstrução das estações. Como parte da aplicação desses recursos, quatro novas bombas foram instaladas na ETA II e um carregamento com novas tubulações chegou ao município.
A renúncia de Tião Bocalom marca o início de uma nova fase política tanto para Rio Branco quanto para o Acre, com o ex-prefeito agora voltando suas atenções para a disputa estadual enquanto seu sucessor imediato assume o desafio de administrar uma capital com múltiplas demandas urgentes por soluções efetivas.



