Delegada Márdhia El-Shawwa é exonerada da Secretaria da Mulher do Acre
A delegada Márdhia El-Shawwa foi exonerada do cargo de secretária da Mulher do Acre (Semulher) nesta terça-feira (7). A informação foi confirmada pela própria gestora à Rede Amazônica Acre, embora ainda não tenha sido publicada oficialmente no Diário Oficial do Estado (DOE).
Márdhia El-Shawwa não comentou detalhes sobre a decisão, limitando-se a informar que foi comunicada por Jonathan Santiago, chefe de gabinete da governadora Mailza Assis, do Progressistas. A Rede Amazônica e o g1 buscaram a Secretaria Estadual de Comunicação (Secom) para esclarecer quem assumirá a pasta, mas aguardam retorno.
Trajetória e contexto da gestão
Ela assumiu o cargo em março de 2023, quando a secretaria foi recriada durante o segundo mandato do governador Gladson Camelí, também do Progressistas. Durante sua gestão, Márdhia enfrentou um cenário desafiador marcado por altas taxas de feminicídios no estado acreano.
Em fevereiro deste ano, a então secretária se posicionou publicamente após declarações do ex-técnico do Vasco-AC, Eric Rodrigues, sobre denúncias de estupro envolvendo atletas do clube no alojamento da equipe em Rio Branco. As falas, exibidas em programas de TV locais, ocorreram após a repercussão do caso que resultou na prisão de um jogador e na decretação de prisão temporária de outros três.
Por meio de nota oficial, a Semulher afirmou que o treinador desqualificou o trabalho técnico, ético e legal da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), ao insinuar suposta parcialidade nas investigações. "Colocar em dúvida a seriedade de profissionais da segurança pública é um desserviço à Justiça, enfraquece a confiança nas instituições e contribui para a perpetuação da impunidade em crimes de violência contra a mulher", destacou um trecho do documento.
Baixa utilização de recursos federais
O Acre recebeu aproximadamente R$ 12 milhões em recursos federais entre 2023 e 2025 para políticas de combate à violência contra a mulher, mas utilizou menos de 20% desse montante. Nos três anos, foram gastos menos de R$ 2,4 milhões, conforme relatório da Controladoria Geral da União (CGU) apresentado à Semulher.
O levantamento também avaliou o atendimento na rede de proteção às mulheres, apontando baixa adesão no uso dos recursos destinados à assistência. Em resposta, a Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre (Sejusp) argumentou que os dados refletem apenas valores repassados e efetivamente executados, não incluindo contratos em andamento ou processos administrativos em fase de aprovisionamento.
Segundo a pasta, a execução real das ações é superior aos números públicos, pois as contas bancárias acumulam rendimentos financeiros que aumentam o saldo disponível. O superintendente da CGU no Acre, Osmar Nilo, explicou que os recursos são enviados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública à Sejusp, que gerencia os valores. "O que tem se visto é uma baixa execução em relação aos recursos efetivamente enviados nos anos de 2023, 2024 e 2025", afirmou.
Cenário alarmante de feminicídios
Com 14 feminicídios registrados em 2025, o Acre possui a maior taxa proporcional de assassinatos contra mulheres no Brasil, estimada em 1,58 casos por 100 mil habitantes, de acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Em números absolutos, o estado lidera o ranking nacional, à frente do Amapá (9 casos) e Roraima (7).
Comparado a 2024, quando houve oito feminicídios, o Acre registrou um aumento de 75% nos casos, retornando ao pico da série histórica dos últimos dez anos, patamar similar ao observado em 2016 e 2018. Este cenário de violência evidencia a urgência de políticas públicas eficazes de proteção às mulheres.
A estudante Elizadora Ribeiro destacou a necessidade de transformar discussões em ações práticas: "Não temos seguranças para andar na rua. O máximo que a gente recebe é um panfletinho, é uma palestra, mas quando a gente se vê numa rua escura não tem para onde correr. Então, eu acho que falta muita coisa".
A dona de casa Gabrielli Costa reforçou a sensação de insegurança: "A gente tem sim muitas leis, mas não temos a praticidade daquilo. Não podemos sair sem ao menos se sentir insegura com qualquer coisa. A gente não quer se tornar estatística".
Durante sua gestão, Márdhia El-Shawwa comentou sobre a auditoria da CGU, enfatizando que o foco era o atendimento às mulheres vítimas de violência nos centros de referência. "Isso é uma auditoria que é realizada a pedido do Ministério das Mulheres em todo o país e o Acre não vai ficar fora, a gente vê de forma positiva até para que seja feito um diagnóstico de como está em todo o Brasil", declarou na época.



