Venezuela liberta genro de opositor enquanto reconfigura relações com os Estados Unidos
A Venezuela libertou nesta quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, Rafael Tudares, genro do opositor Edmundo González Urrutia, após doze meses de detenção. A soltura marca um passo significativo no contexto de acordos estabelecidos pela presidente interina, Delcy Rodríguez, com os Estados Unidos, visando aliviar a repressão política no país.
Detenção e condenação de Rafael Tudares
Rafael Tudares foi detido em janeiro de 2025 por homens encapuzados enquanto se dirigia à escola com seus dois filhos. Posteriormente, foi condenado à pena máxima de 30 anos de prisão por acusações de terrorismo, em um caso qualificado como represália por González, ex-rival do ditador deposto Nicolás Maduro.
Edmundo González Urrutia concorreu contra Maduro nas eleições presidenciais de 2024, após a vencedora do Nobel da Paz, María Corina Machado, ser barrada por uma manobra do regime. González partiu para o exílio na Espanha, enquanto sua filha Mariana e Rafael Tudares permaneceram na Venezuela.
Após 380 dias de uma injusta prisão arbitrária e de ter padecido, por mais de um ano, uma situação desumana de desaparecimento forçado, meu esposo Rafael Tudares Bracho voltou para casa nesta madrugada, escreveu Mariana González em suas redes sociais. Foi uma luta estoica e muito dura por mais de 1 ano, acrescentou.
Contexto político e acordos com os Estados Unidos
Delcy Rodríguez, que herdou o poder após a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026, tem reconfigurado a relação com Washington. Entre os compromissos assumidos estão:
- Acordos sobre o petróleo para incentivar investimento estrangeiro.
- Promessa de libertar presos políticos, com 143 solturas desde 8 de janeiro, segundo a ONG Foro Penal.
- Reorganização do gabinete de ministros e comandos militares.
Rodríguez tem uma reunião prevista com o presidente Donald Trump na Casa Branca, em data a ser determinada. Em declarações recentes, Trump elogiou a líder venezuelana, afirmando que os líderes do país têm sido muito, muito inteligentes.
Situação dos presos políticos na Venezuela
O processo de libertação de presos políticos tem sido lento, com a ONG Foro Penal contabilizando 777 presos políticos até 19 de janeiro. Dezenas de familiares dormem em frente às penitenciárias na esperança de ver seus entes queridos em liberdade.
Entre os opositores que continuam detidos destacam-se:
- Juan Pablo Guanipa, aliado de María Corina Machado, vinculado a uma suposta conspiração contra eleições de 2025.
- Freddy Superlano, detido em julho de 2024 durante protestos contra a reeleição de Maduro.
- Javier Tarazona, preso desde 2021 por acusações de terrorismo, traição e incitação ao ódio.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos denunciou que a Venezuela mantém centros de detenção clandestinos, levantando preocupações sobre as condições dos detidos.
Governo interino e reformas de Delcy Rodríguez
Rodríguez, ex-vice-presidente de Maduro, está teoricamente encarregada do governo até o retorno do líder deposto, preso em Nova York para ser julgado por narcotráfico. A Constituição permite que ela mantenha o poder por até seis meses, quando novas eleições devem ser convocadas.
No entanto, a líder interina assumiu o controle total, implementando mudanças como:
- Reforma da lei de hidrocarbonetos para atrair investimento estrangeiro no setor petrolífero.
- Reestruturação dos comandos militares, nomeando generais para 12 das 28 comandâncias regionais.
- Designação de um ex-chefe do serviço de inteligência (Sebin) para cargos-chave na segurança.
Estamos em um processo de diálogo, de trabalho com os Estados Unidos, sem medo algum, para enfrentar as diferenças, as dificuldades, disse Rodríguez, sem fazer referência ao convite de Trump. Ela ainda enfrenta sanções econômicas de Washington, incluindo o congelamento de bens.
Reações e cenário político interno
Enquanto isso, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, negou ter se reunido com funcionários americanos antes da queda de Maduro. O partido governista, sob sua direção, organiza protestos diários pelo sequestro do presidente deposto e sua esposa, Cilia Flores.
A libertação de Rafael Tudares simboliza uma nova fase política na Venezuela, mas o caminho para a democratização e o respeito aos direitos humanos permanece incerto, com centenas de presos políticos ainda aguardando justiça.