Macron perde batalha: UE aprova acordo com Mercosul e crise política se agrava
UE aprova acordo Mercosul contrariando Macron em crise

Em uma decisão que amplifica a crise política na França, a União Europeia (UE) aprovou, nesta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, o acordo comercial com o Mercosul. A medida contrariou frontalmente a posição do presidente francês, Emmanuel Macron, que na véspera havia anunciado seu voto contra o pacto, negociado há 25 anos.

Protestos agrícolas e oposição de Macron

A aprovação do tratado ocorre em um momento de extrema fragilidade para o governo francês. Macron, com popularidade em apenas 20%, enfrenta uma onda de protestos barulhentos de agricultores, temerosos da concorrência com produtos sul-americanos. Na quinta-feira, 8 de janeiro, fazendeiros com tratores bloquearam a avenida Champs-Élysées e arredores do Arco do Triunfo, em Paris, em um claro sinal de descontentamento.

O presidente francês criticou publicamente o acordo, argumentando que os benefícios econômicos para a Europa são "limitados" e não justificam expor setores agrícolas sensíveis ou ameaçar a "soberania alimentar" do país. Em uma postagem na rede social X, Macron afirmou ter liderado a oposição ao pacto e prometeu continuar lutando pela proteção dos agricultores franceses.

As razões políticas do veto francês

A oposição de Macron vai além da defesa do agronegócio local e está profundamente ligada ao cenário político interno. O presidente, que não pode concorrer à reeleição em 2027, vê sua base centrista extremamente enfraquecida após uma série de quedas de primeiros-ministros por moções de censura.

Enquanto isso, a extrema direita, liderada por Jordan Bardella do Reagrupamento Nacional, ganha força. Pesquisas do Instituto Odoxa indicam que, se a eleição fosse hoje, Bardella venceria no primeiro turno com 36% das intenções de voto. Nesse contexto, Macron não pode se dar ao luxo de alienar o eleitorado conservador e rural, que se opõe veementemente ao acordo com o Mercosul.

Consequências imediatas e reações

A decisão da UE acionou um alerta vermelho no parlamento francês. Tanto a extrema direita quanto a esquerda radical, do partido França Insubmissa, anunciaram a apresentação de moções de censura contra o governo. Se bem-sucedida, a medida pode derrubar o atual primeiro-ministro, Sebastién Lecornu, o que seria a sexta queda de um chefe de governo indicado por Macron.

Jordan Bardella acusou o presidente de uma "manobra de comunicação tão tardia quanto hipócrita" e de nunca defender os interesses franceses. O acordo, que eliminará progressivamente tarifas de até 35% sobre manufaturados europeus no Mercosul e de até 15% sobre produtos agrícolas sul-americanos na UE, é visto pelos agricultores franceses como uma "concorrência desleal".

Do ponto de vista estratégico, o tratado é vital para a UE ampliar a exportação de veículos, máquinas e vinhos para a América do Sul, além de reduzir a dependência comercial da China e garantir acesso a minerais críticos. Para o Mercosul, significa maior fluxo de carne bovina, açúcar, soja e arroz para o mercado europeu.

Com a aprovação formal, Macron se vê encurralado. Sua tentativa de se posicionar como defensor dos agricultores não foi suficiente para conter a ira dos protestos nem para evitar uma nova e perigosa batalha política no parlamento, em um governo que já opera no limite de sua capacidade.