A queda do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, após uma ação militar dos Estados Unidos, trouxe um misto de alegria e cautela ao país e ao mundo. Enquanto venezuelanos na diáspora celebravam, a incerteza sobre o futuro político pairava sobre Caracas. O presidente americano, Donald Trump, rapidamente delineou um plano ambicioso e controverso para o país: os Estados Unidos "governariam" a Venezuela, com foco na exploração das suas vastas reservas petrolíferas.
O plano de Trump e a rejeição à oposição
Em uma coletiva de imprensa realizada em sua mansão na Flórida no dia 3 de janeiro de 2026, Trump deixou claro que não via a principal figura da oposição, María Corina Machado, como uma líder viável. Vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Machado foi descartada por Trump, que afirmou que ela "não tem apoio nem respeito dentro do país". O nome de Edmundo González, que venceu as eleições de 2024 com o apoio dela, nem foi mencionado.
Em vez disso, o presidente americano apostou em um acordo com Delcy Rodríguez, vice-presidente e ministra do Petróleo do regime deposto. Trump declarou que Rodríguez estaria "disposta a fazer o que achamos necessário para tornar a Venezuela grande novamente". Seu plano, embora vago em detalhes, consiste em liberar o capitalismo americano no setor petrolífero venezuelano. Petroleiras dos EUA investiriam bilhões para reativar a infraestrutura, e as receitas geradas financiariam a reconstrução do país, com uma promessa de eleições futuras.
A resistência interna e a fragilidade do chavismo
Contudo, a realidade dentro da Venezuela se mostrou mais complexa. Delcy Rodríguez, uma ideóloga de esquerda com histórico familiar revolucionário, apareceu na televisão estatal para negar qualquer submissão. "Nunca seremos colônia de nenhum império", afirmou, mantendo que Maduro seguia como presidente legítimo. Analistas sugerem que suas declarações públicas podem ser uma postura para manter a coesão do regime.
O grande desafio para Rodríguez, caso realmente esteja negociando em privado, é garantir o apoio das figuras poderosas do chavismo e das Forças Armadas. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, prometeu resistência, enquanto o ministro do Interior, Diosdado Cabello, pediu calma. O exército, cujos altos escalões enriqueceram com a corrupção, pode apoiar Rodríguez se ela garantir seus privilégios. No entanto, o risco de uma divisão militar é real, o que poderia mergulhar o país em um caos ainda maior com a atuação de coletivos armados e grupos guerrilheiros colombianos.
Isolamento internacional e futuro incerto
O regime de Maduro, e agora sua possível sucessora, enfrentam um isolamento internacional quase completo. Aliados tradicionais como Cuba, China e Rússia condenaram a invasão americana, mas não ofereceram apoio prático imediato. Cuba, dependente do petróleo venezuelano, está enfraquecida e terá de aceitar qualquer novo líder. As relações entre Rodríguez e os cubanos já são descritas como tensas.
Na região, países como Brasil, Colômbia e México condenaram a violação da soberania venezuelana, mas seu principal interesse é conter uma nova onda de refugiados e evitar que o caos se espalhe. Trump já ameaçou diretamente o México e alertou o presidente colombiano, Gustavo Petro, para "tomar cuidado".
Enquanto isso, María Corina Machado se vê marginalizada no momento em que seu grande objetivo – a saída de Maduro – é alcançado. A população venezuelana, exausta após décadas de crise e repressão, mostra mais preocupação com a sobrevivência do que com protestos massivos. Com poucos apoios externos, um exército dividido e sob a constante ameaça de novos ataques de Trump, Delcy Rodríguez pode ser forçada a fechar um acordo. O pacto com o antigo inimigo pode ser a única forma de o chavismo, um regime notavelmente adaptável, garantir mais uma chance de sobrevivência, mesmo que isso signifique uma Venezuela sob forte influência americana.