A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro e a intervenção dos Estados Unidos no país vizinho reposicionaram o ex-presidente americano Donald Trump como uma figura central no cenário político latino-americano. Este novo contexto internacional gera apreensão, especialmente no governo brasileiro, às vésperas de uma eleição presidencial marcada por polarização e disputas narrativas, prevista para 2026.
O poder simbólico e os "segredos" do chavismo
Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da ESPM, a prisão de Maduro conferiu a Trump uma posição simbólica poderosa perante a esquerda da região. Além de se projetar como adversário direto de governos progressistas, Trump passa a ser visto como detentor de potenciais informações sensíveis sobre a relação histórica entre o chavismo e partidos de esquerda latino-americanos.
"Existe, sim, a narrativa de que Trump poderia, a qualquer momento, lançar acusações sobre corrupção, financiamento ilegal ou vínculos com o narcotráfico envolvendo governos de esquerda. Mesmo que essas informações não sejam checáveis, elas podem ser usadas politicamente", afirmou Ramirez em análise ao programa Os Três Poderes.
Interferência indireta: o papel das big techs
Apesar do temor, o especialista avalia que uma interferência direta de Trump no processo eleitoral brasileiro é pouco provável. O risco maior estaria em uma atuação indireta, principalmente por meio de plataformas digitais e da disseminação de desinformação.
Ramirez lembra a relação próxima entre o governo Trump e grandes empresas de tecnologia, como Meta (dona do Facebook e Instagram) e Google. "Essas big techs tendem a, no mínimo, fazer vistas grossas para a disseminação de conteúdos falsos ou distorcidos, o que pode afetar diretamente o ambiente eleitoral", analisa.
Pragmatismo americano e a reversão com o Brasil
Um ponto destacado pelo professor foi a rápida reversão das tensões tarifárias impostas pelos EUA ao Brasil. Após meses de atrito diplomático, houve uma reabertura do diálogo, com encontros e até elogios públicos de Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive em fórum da ONU.
"Isso tem relação direta com as pesquisas de opinião. Os Estados Unidos perceberam que Lula é favorito à reeleição. Não faz sentido romper com um provável vencedor", explica Ramirez, enfatizando que o pragmatismo americano frequentemente se sobrepõe à retórica ideológica.
O analista também aponta que Trump tende a recuar quando enfrenta duas reações específicas: uma opinião pública local negativa e discursos firmes de líderes latino-americanos. Ele cita o caso do presidente colombiano, Gustavo Petro, cujas críticas contundentes, somadas ao apoio interno, levaram a um rápido distensionamento após declarações agressivas de Trump.
O cenário para 2026: desinformação e tensão geopolítica
Na avaliação final de Paulo Niccoli Ramirez, o cenário eleitoral de 2026 tende a reproduzir elementos de 2022, como desinformação, ataques às instituições e tentativas de deslegitimação do processo. A diferença crucial será um contexto internacional mais inflamado, com Trump novamente no centro das atenções globais.
"O risco existe, mas ele é mais difuso do que direto. O maior desafio para a democracia brasileira será lidar com a atuação das redes sociais e com a circulação de narrativas falsas que podem ser impulsionadas por interesses externos", conclui o cientista político.
Entre ameaças, recuos estratégicos e pragmatismo, o Brasil se encaminha para o próximo ciclo eleitoral sob o peso de um tabuleiro geopolítico instável. Neste jogo, a influência externa pode não decidir o vencedor, mas certamente terá o poder de tensionar ainda mais a disputa.