Reforma do petróleo na Venezuela e encontro Trump-Machado geram incertezas
Reforma do petróleo venezuelano e pressão dos EUA

O cenário político e econômico da Venezuela voltou a ser agitado por uma combinação de ações militares, movimentos diplomáticos e propostas de reforma interna. Dois eventos recentes, ocorridos em 16 de janeiro de 2026, destacam as incertezas que persistem sobre o futuro do país e a viabilidade de uma retomada de investimentos estrangeiros, especialmente no crucial setor petrolífero.

Pressão Americana e Encontro Reservado em Washington

As forças dos Estados Unidos realizaram uma nova apreensão de um petroleiro venezuelano no Mar do Caribe. A operação militar interceptou o navio Veronica, com tropas desembarcando de helicópteros na embarcação. Esta ação reforça a estratégia do governo americano de impedir a comercialização do petróleo venezuelano sem sua autorização, mantendo uma rígida pressão econômica sobre Caracas.

Paralelamente, em Washington, ocorreu um encontro reservado entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a líder da oposição venezuelana, Maria Corina Machado. O almoço, que durou cerca de uma hora, não teve imagens divulgadas, mas Trump posteriormente publicou uma mensagem nas redes sociais elogiando a trajetória de Machado e mencionando o prêmio Nobel da Paz que ela recebeu simbolicamente. A porta-voz da Casa Branca negou que houvesse uma tentativa de convencimento direto para a realização de eleições durante o encontro, caracterizando a conversa como reservada.

A Proposta de Reforma e os Obstáculos para Investidores

Em resposta aos desafios, o governo venezuelano, através da presidente interina Delcy Rodríguez, apresentou à Assembleia Nacional um projeto de reforma do setor petrolífero. No discurso no Legislativo, Rodríguez pediu união entre governo e parlamentares para aprovar mudanças que facilitem investimentos e ajudem a reativar a principal indústria do país, que hoje sofre com infraestrutura defasada.

No entanto, analistas veem a proposta com ceticismo. Durante o programa Mercado, apresentado por Veruska Donato, o especialista Marcus Labarthe, da GT Capital, avaliou que a reforma é necessária, mas ainda insuficiente para garantir uma retomada consistente. Ele destacou que a economia venezuelana sofre há décadas com incentivos fracos e que o país ainda está no início de um processo difícil de compreender. “A gente ainda não sabe muito bem como a Venezuela vai evoluir nesse novo contexto, se vai ter eleição ou não”, afirmou.

A Equação Risco-Retorno Desfavorável

Para as empresas estrangeiras, a equação risco-retorno atualmente pesa contra a Venezuela. Labarthe explicou que, mesmo com mudanças políticas parciais, o risco permanece elevado, e os investimentos necessários são de longo prazo e vultuosos. Estimativas discutidas no programa apontam para a necessidade de até 120 bilhões de dólares para reestruturar a indústria petrolífera venezuelana.

Em comparação, o analista lembrou que toda a indústria americana de petróleo investiu cerca de 50 bilhões de dólares em 2025, um valor bem inferior ao exigido na Venezuela. Com outras opções mais seguras e rentáveis disponíveis no mercado global, as empresas tendem a adotar uma postura de espera, exigindo garantias legais e estabilidade institucional antes de considerar um retorno, evitando assim repetir prejuízos do passado.

A conclusão dos especialistas é clara: uma maior aproximação com os Estados Unidos poderia ser positiva para a Venezuela, mas apenas se for acompanhada de previsibilidade institucional e continuidade das regras. Até que esses elementos se concretizem, a reforma do petróleo apresentada por Caracas parece funcionar mais como um sinal de intenção do que como uma garantia de retomada econômica imediata. O futuro do país segue envolto em incertezas, com a pressão internacional e as fragilidades internas criando um cenário complexo para qualquer investidor.