Rapper Balendra Shah é eleito primeiro-ministro do Nepal após protestos da Geração Z
Rapper é eleito primeiro-ministro do Nepal após protestos

Rapper Balendra Shah assume como primeiro-ministro do Nepal após onda de protestos

O Nepal testemunha uma virada histórica em sua política com a posse de Balendra Shah como primeiro-ministro nesta sexta-feira (27). O artista de rap, um dos mais populares do país, chega ao poder após seu partido obter uma vitória esmagadora nas eleições gerais realizadas no início do mês, as primeiras desde os protestos da Geração Z que derrubaram o governo no ano passado.

Da música à política: uma trajetória meteórica

A transformação de Shah de rapper para político começou em 2022, quando foi eleito prefeito de Katmandu, a capital do Nepal, concorrendo de forma independente com promessas de limpar ruas e rios da cidade. Frequentemente vestido de preto e usando óculos escuros, o ex-artista raramente discursava durante a campanha, preferindo se comunicar com seus apoiadores principalmente pelas redes sociais.

Shah foi apresentado pelo Rastriya Swatantra (RSP), partido com apenas três anos de existência, como candidato a primeiro-ministro pouco depois de ingressar nele, em dezembro de 2025. Sua campanha se concentrou em reformas econômicas, com promessas de ampliar o acesso à educação e à saúde para os nepaleses mais pobres.

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Vitória eleitoral expressiva e desafios pela frente

Nas eleições, o partido dele, o RSP, garantiu 125 dos 165 assentos nas eleições diretas e outros 57 pela representação proporcional, somando 182 cadeiras, quase dois terços do total do Parlamento. Analistas acreditam que essa maioria lhe dará espaço para implementar reformas, mas sua limitada experiência e o desafio de administrar as expectativas de seus apoiadores serão obstáculos nos próximos meses.

"Balen Shah não tem experiência em gestão governamental e carece do conhecimento complexo necessário para administrar o Estado", afirma Hari Bahadur Thapa, escritor radicado em Katmandu que escreve sobre corrupção e governança, à agência de notícias Associated Press.

Protestos da Geração Z: o combustível da mudança

Os protestos que derrubaram o antigo primeiro-ministro em setembro foram alimentados por vídeos postados nas redes sociais que mostravam o estilo de vida privilegiado dos filhos da elite política. Hashtags como #nepokids viralizaram, expondo o contraste entre o privilégio da elite e as dificuldades cotidianas da população.

Durante os protestos, Shah usou seu perfil no Instagram, onde tem 1 milhão de seguidores, para comentar a situação no país. Após as mortes de manifestantes, ele chamou o então premiê de "terrorista" que não entendia a "dor de perder um filho ou filha". Um dia depois da renúncia de Khadga Prasad Oli, ele pediu calma aos jovens: "Querida Geração Z, a renúncia dos seus opressores na política já aconteceu! Agora, por favor, tenham paciência".

O perfil do novo líder: do rap à engenharia

Shah tem 35 anos, é formado em engenharia civil e é filho de um praticante de medicina ayurvédica e de uma dona de casa. Segundo um assessor, ele desenvolveu sua paixão pela poesia desde cedo, que evoluiu para a carreira no rap, influenciado por artistas americanos como Tupac Shakur e Curtis "50 Cent" Jackson.

Suas letras refletem seu pensamento político. Em "Nepal Smiling", ele imagina um país mais justo: "Que o país seja um belo jardim". Já em "Sacrifice", seu tom é mais incisivo: "Todos os líderes são ladrões... saqueando o país".

O papel das redes sociais na insatisfação popular

A proibição de curta duração das mídias sociais pelo governo anterior irritou ainda mais os manifestantes, que a viram como uma tentativa de controlar as críticas às desigualdades. Entre os conteúdos mais compartilhados estavam vídeos de filhos de autoridades exibindo marcas de luxo e veículos de alto padrão.

"O contraste entre o privilégio da elite e as dificuldades cotidianas tocou profundamente a geração Z e, rapidamente, se tornou uma narrativa central que impulsionava o movimento", afirma Raqib Naik, diretor executivo do Centro de Estudos do Ódio Organizado, ao jornal "The New York Times".

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Agora, com a posse de Balendra Shah, o Nepal entra em uma nova era política, onde um rapper sem experiência governamental tenta canalizar a energia dos protestos juvenis em reformas concretas, enquanto enfrenta o desafio de atender às altas expectativas de uma geração que ajudou a colocá-lo no poder.