O que começou como uma simples corrida entre amigos se transformou em um dos encontros mais aguardados de Porto Velho. Toda terça-feira, às 19h30, centenas de pessoas se reúnem no complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) para participar do Funpace, uma experiência que mistura esporte, música e vida social ao som do Noiadance. O evento, conhecido entre os participantes como um verdadeiro “culto”, tem como lema transformar a corrida em uma vivência coletiva, promovendo amizades e um novo estilo de vida.
Origem e crescimento do Funpace
O Funpace nasceu oficialmente em setembro de 2025, a partir de um evento criado no Strava, rede social voltada para atividades físicas. A primeira edição foi chamada de NR (Night Run) 01 e contou com a participação de 20 a 25 pessoas, a maioria mulheres. Lucas Rômulo, um dos fundadores, relembra que o início foi improvisado e até caótico: no primeiro encontro, um dos organizadores chegou atrasado, fazendo alguns participantes duvidarem da veracidade do evento. “Hoje, essa história virou motivo de riso. Na época, era só o começo de algo despretensioso, mas com grande propósito”, conta Lucas.
Inicialmente, os encontros aconteciam em um posto de combustível na Avenida Jorge Teixeira, próximo à Rodoviária “Destemidos Pioneiros”. O percurso de cinco quilômetros passava pelas avenidas Carlos Gomes, Farquar e Duque de Caxias. Mas o que começou pequeno cresceu rapidamente. A cada terça-feira, mais pessoas aderiam ao dress code do grupo — roupas pretas ou brancas — e logo dezenas se tornaram centenas. Segundo Lucas, mais de 20 mil pessoas já participaram do “culto”. “A cada semana era nítido que mais pessoas compareciam. A partir da NR 09, saímos de 100 para mais de 300 participantes todas as semanas”, relembra.
Mudança para a EFMM e identidade cultural
O Holidays Run, último encontro de 2025, marcou uma virada. Com o crescimento do público, os organizadores decidiram levar os encontros para o complexo da EFMM, buscando um espaço que representasse a identidade cultural e histórica de Porto Velho. “Para a próxima estação, entendemos que precisava ser em um ponto que marcasse a cultura e a história da cidade e, acima de tudo, que comportasse o crescimento do movimento”, explica Lucas.
A proposta do Funpace é fugir da pressão das corridas tradicionais: não há competição, comparação ou cobrança. O objetivo é correr pelo prazer, pela experiência e pela companhia, guiados pelo lema “ninguém solta a mão de ninguém”. Os corredores seguem juntos, guiados por um pacer, que mantém o ritmo coletivo. Durante os cinco quilômetros, playlists recheadas de música, especialmente Noiadance, transformam a corrida em uma experiência quase coreografada.
O papel do Noiadance
O Noiadance, estilo musical que ganhou projeção nacional em 2025 com o hit “Santinha” do DJ Felipe Moraes, já fazia parte da cultura popular de Porto Velho há anos, embalando festas nas zonas Leste e Sul. Agora, também anima as corridas do Funpace. Curiosamente, o ritmo não fazia parte das primeiras playlists do grupo, que começou com músicas eletrônicas como “Rhythm of the Night” e “Ai Ai Ai Remix” de Vanessa da Mata. Mas os pedidos do público mudaram a trilha sonora. “Numa determinada terça-feira, a pedido da Victoria Souza, me rendi a deixar tocar um Noiadance. Foi colocar a música e a magia acontecer. A atmosfera mudou”, relembra Lucas.
A seleção musical é pensada para agradar diferentes públicos, já que muitas famílias, pais e crianças participam. As batidas aceleradas ajudam o grupo a manter o ritmo. “A música é parte fundamental da nossa experiência. O Noiadance reforçou a alta carga de dopamina na corrida, especialmente quando as pessoas sentem que podem cantar e dançar juntas”, conta Lucas.
Benefícios da corrida coletiva
Desde a pandemia, a corrida de rua ganhou espaço no Brasil. Em Porto Velho, o crescimento é visível em locais como o Espaço Alternativo e o Skate Parque. Jovens passaram a enxergar a corrida como estilo de vida, lazer e forma de conexão social. O preparador físico Sandro Migueres destaca que a pandemia teve papel importante nesse crescimento, pois a corrida é acessível. “Qualquer tênis pode atender alguém no começo, e não é necessário muito para sair na rua e correr os primeiros quilômetros”, explica.
Segundo Sandro, os grupos ajudam a manter a motivação e fortalecem o hábito esportivo. “Correr sozinho é bom. Correr fazendo parte de um grupo é melhor. Mesmo que cada pessoa faça seu treino individualmente, ter aquela ‘resenha’ pós-treino é fundamental para se sentir parte do grupo”, afirma. Ele também alerta para os excessos, que podem causar lesões sem orientação adequada.
Impacto além da corrida
Para muitos, o Funpace já deixou de ser apenas uma corrida. O grupo ajudou a criar amizades, casais e novas conexões sociais. Lucas destaca que o movimento fortalece a economia local, movimenta o complexo da EFMM e representa um projeto pioneiro de corrida coletiva na região Norte. “Um horário diferente, um dia diferente, um local diferente, uma rota diferente. A adoção de dress code, linguagem própria e rituais próprios. Tudo isso para trazer um novo jeito, uma nova cultura para a cidade de Porto Velho”, conclui.



