Uma frota de navios carregados com milhões de barris de petróleo e combustível venezuelano conseguiu deixar as águas do país nas últimas semanas, em um movimento que desafia abertamente o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos. A informação, baseada em documentos e dados de monitoramento marítimo, revela a complexidade da crise entre Washington e Caracas.
Navios fantasmas e rotas secretas
Os dados do setor marítimo analisados pela Reuters indicam que todos os navios identificados que zarparam da Venezuela estão sob sanções internacionais. A maioria opera sem bandeira registrada ou documentação de segurança válida, uma tática comum para embarcações que transportam cargas de nações sancionadas.
Fontes do setor afirmam que ao menos quatro superpetroleiros receberam autorização das autoridades venezuelanas para navegar em "modo escuro", com seus sistemas de identificação por satélite desligados. Eles transportam cerca de 12 milhões de barris de petróleo pesado e óleo combustível, segundo acordos com a estatal PDVSA.
"Conseguimos escoar parte da produção, apesar dos riscos", admitiu uma fonte da PDVSA à agência de notícias, acrescentando que essa rota dificilmente poderá ser usada novamente. Parte da flotilha partiu no sábado, 3 de janeiro de 2026, por rotas ao norte da ilha de Margarita.
O contraste da Chevron e a ameaça de Trump
Enquanto a PDVSA enfrenta o bloqueio, a situação da americana Chevron é diametralmente oposta. A empresa, que possui uma licença especial de Washington, retomou as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos após uma pausa de quatro dias. Um navio fretado pela companhia já transporta cerca de 300.000 barris para a Costa do Golfo.
Esse privilégio contrasta com a paralisia quase total das exportações da PDVSA, que forçou cortes na produção nacional. Antes das recentes partidas clandestinas, mais de 20 milhões de barris estavam retidos em navios à espera de autorização para zarpar.
O presidente Donald Trump reafirmou que o embargo ao petróleo venezuelano permanece em vigor, apesar da mudança no comando político do país após a captura de Nicolás Maduro. No domingo, ele voltou a ameaçar com novas ações militares caso as autoridades locais não cooperem com os esforços dos EUA para abrir o setor petrolífero e combater o narcotráfico.
Destino incerto e pressão econômica
Cerca de metade das embarcações que integram a flotilha são superpetroleiros que tradicionalmente abastecem o mercado asiático, com a China como principal destino. Ainda não está claro se essas cargas foram autorizadas ou apenas toleradas pelas autoridades americanas.
Um funcionário do governo dos EUA disse que a chamada "quarentena" naval tem sido aplicada, na prática, apenas a navios sancionados, sem detalhar os critérios para permitir as partidas. O bloqueio foi anunciado por Trump em meados de dezembro, visando cortar o financiamento ao regime chavista.
As exportações de petróleo representam a principal fonte de receita da Venezuela. O governo interino, liderado por Delcy Rodríguez, depende desse fluxo para financiar gastos públicos e tentar estabilizar a economia em frangalhos, tornando o sucesso ou fracasso desse escoamento clandestino um ponto crucial para o futuro imediato do país.