María Corina Machado na Casa Branca: Nobel da Paz se reúne com Trump após queda de Maduro
María Corina Machado se reúne com Trump na Casa Branca

A cena parecia ser o epílogo de uma longa batalha pela democracia, mas revelou-se um novo capítulo de complexidade geopolítica. Nesta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, a líder oposicionista venezuelana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, María Corina Machado, adentrou o complexo da Casa Branca em Washington, D.C., para um almoço fechado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Um Encontro Sob a Sombra da Intervenção

A reunião ocorre em um contexto de reviravoltas dramáticas. A operação militar americana que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro deixou um vácuo de poder que foi rapidamente preenchido por sua vice, Delcy Rodríguez, que assumiu a liderança interina do país, mantendo o chavismo no comando. Enquanto isso, a oposição democrática, que celebrou a queda de Maduro, viu-se escanteada nas negociações subsequentes.

Vestindo um terno branco, María Corina Machado chegou de carro e foi escoltada para dentro da residência presidencial. A imagem, porém, contrasta com a postura recente de Trump. Apesar de a opositora ter elogiado publicamente a ação militar dos EUA e agradecido a Trump por aproximar a "liberdade" da Venezuela, o mandatário americano recusou-se a apoiar a ascensão da oposição ao poder.

A Surpreendente Posição de Trump e os Acordos com o Chavismo

Em declarações que causaram perplexidade, Donald Trump afirmou que María Corina Machado, embora "simpática", não teria apoio suficiente para liderar uma transição. Em vez de endossar Edmundo González Urrutia – o candidato que, segundo levantamentos independentes, venceu as eleições fraudadas de 2024 e foi reconhecido como presidente eleito por EUA, União Europeia e vários países latino-americanos –, Trump sugeriu um caminho diferente.

O presidente americano defendeu que os Estados Unidos "vão governar" a Venezuela por tempo indeterminado, sem especificar prazos ou métodos, até que uma transição "justa e sensata" seja possível. Paralelamente, revelou estar negociando diretamente com a interina Delcy Rodríguez.

Trump afirmou que Rodríguez concordou em "fazer o que for necessário" para atender aos interesses americanos, incluindo a venda de petróleo venezuelano sob sanções. Contudo, internamente, a líder chavista mantém um discurso de confronto, denunciando a operação em Caracas como uma "agressão à soberania" e exigindo a libertação de Maduro. Na véspera do encontro com Machado, Trump e Rodríguez conversaram por telefone.

O Longo Caminho até a Casa Branca

A trajetória de María Corina Machado até essa reunião foi marcada por resistência e perseguição. Líder da oposição desde que venceu as primárias em 2023, ela teve sua candidatura às eleições de julho de 2024 barrada por uma manobra do regime de Maduro. Em seu lugar, endossou o diplomata Edmundo González Urrutia.

Após Maduro se declarar reeleito e tomar posse em janeiro de 2025 para um novo mandato de seis anos, a perseguição se intensificou. Machado passou a viver escondida na Venezuela, enquanto González fugiu para o exílio em Madri. A saída de Machado do país só ocorreu em novembro de 2025, para receber o Nobel da Paz em Oslo, e desde então ela não retornou.

A reunião na Casa Branca, portanto, simboliza um momento paradoxal. Representa o reconhecimento internacional de sua luta, materializado no Nobel, mas também evidencia os limites de sua influência no tabuleiro político real pós-Maduro, onde os EUA parecem privilegiar acordos pragmáticos com o chavismo remanescente em detrimento de uma transição liderada pela oposição eleitoralmente legitimada.

Enquanto María Corina Machado e Donald Trump conversavam a portas fechadas, Delcy Rodríguez se preparava para fazer um discurso sobre o estado da nação na Venezuela, consolidando sua posição como peça-chave, ainda que interina, no futuro imediato do país. O cenário venezuelano, longe de se simplificar com a queda do ditador, entra em uma fase ainda mais complexa e imprevisível.