Jovem ultraortodoxo morre atropelado em protesto contra alistamento militar em Israel
Jovem morre atropelado em protesto contra alistamento em Israel

Um jovem de 18 anos, integrante da comunidade judaica ultraortodoxa, morreu após ser atropelado por um ônibus durante um protesto contra o recrutamento militar em Jerusalém. O incidente violento, ocorrido na terça-feira, 6 de janeiro de 2026, acendeu um novo alerta sobre as crescentes tensões em Israel, onde o governo tenta resolver a escassez de soldados ampliando o alistamento obrigatório.

Detalhes do incidente e investigação policial

De acordo com o serviço de emergência israelense Magem David Adom, a vítima ficou presa debaixo do veículo e foi declarada morta ainda no local do acidente. Imagens amplamente divulgadas nas redes sociais capturaram o momento em que o ônibus avança contra os manifestantes, gerando comoção e revolta.

A polícia israelense assumiu a investigação do caso e já colocou o motorista do ônibus sob custódia. Em seu depoimento, o condutor alegou ter sido agredido por participantes do protesto momentos antes do atropelamento fatal. As autoridades descreveram que a manifestação, inicialmente pacífica, degenerou em violência.

Em comunicado oficial, a polícia detalhou que um grupo de manifestantes "começou a perturbar violentamente a ordem pública". As ações incluíam bloquear vias de trânsito, danificar ônibus, incendiar lixeiras e atirar objetos, incluindo ovos, contra policiais e agentes da Guarda de Fronteira. Jornalistas que cobriam o evento também teriam sido agredidos e insultados. Segundo a polícia, foi neste contexto de confronto que os manifestantes bloquearam a passagem do ônibus envolvido na tragédia.

O pano de fundo da crise: a isenção histórica e a pressão militar

A morte do jovem em Jerusalém não é um evento isolado, mas sim o ápice de uma crise política e social que se arrasta há décadas em Israel. A raiz do conflito está em uma norma estabelecida em 1948, ano da fundação do Estado de Israel, que isenta do serviço militar obrigatório homens que se dedicam em tempo integral ao estudo dos textos sagrados judaicos, os chamados yeshivas.

Embora o Supremo Tribunal de Justiça de Israel tenha considerado essa isenção ilegal há cerca de 20 anos, a determinação seguiu sendo aplicada na prática até o ano passado. Em 2025, pressionada pela necessidade urgente de recrutas, a corte ordenou novamente o fim da isenção e a convocação dos jovens ultraortodoxos.

A medida é uma resposta direta à escassez de soldados nas Forças de Defesa de Israel (IDF), agravada pelo cenário de tensão regional. Além do conflito em Gaza, que se encontra em cessar-fogo, Israel mantém operações militares na fronteira com o Líbano, exigindo uma mobilização significativa de tropas e reservistas.

Instabilidade política e o futuro do governo Netanyahu

A tragédia em Jerusalém joga luz sobre a profunda instabilidade política que abala o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O premiê depende do apoio crucial dos partidos ultraortodoxos para manter sua coalizão no poder, e a questão do alistamento é uma linha vermelha para esses grupos.

A pressão já causou rachaduras significativas. Em novembro, o partido Judaísmo Unido da Torá abandonou a coalizão governista. Ministros de outra sigla ortodoxa de grande influência, o Shas, renunciaram a seus cargos no gabinete logo após a apresentação de um projeto de lei sobre o alistamento na comissão de relações exteriores e defesa do Knesset, o parlamento israelense.

O atropelamento fatal, portanto, vai muito além de um trágico acidente de trânsito. Ele simboliza o choque entre uma tradição religiosa centenária e as necessidades de segurança nacional em um país sob constante pressão. A investigação sobre as circunstâncias exatas da morte do jovem de 18 anos continuará, mas seu desfecho dificilmente apaziguará a fúria de uma comunidade que se sente sob ataque e a crise de um governo que vê seus alicerces políticos desmoronarem.