Conflito no Oriente Médio na quinta semana pressiona Trump e abala cenário político americano
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que adentra sua quinta semana, tem gerado cenários de terra arrasada e impactado nações do Golfo, além de disparar o preço do petróleo e espalhar incertezas na economia global, incluindo o Brasil. No entanto, o que Donald Trump alardeava inicialmente não se concretizou: apesar dos danos a instalações nucleares e à força bélica iraniana, o regime dos aiatolás permanece de pé, emitindo sinais de resistência e desestabilizando o tabuleiro geopolítico.
Trump busca afinar discurso enquanto Irã rejeita propostas de paz
Nos últimos dias, Trump tentou convencer o planeta e seus eleitores de que Washington mantém "conversas produtivas" com Teerã, informação repetidamente desmentida pelo regime persa. Após bravatas sobre uma "rendição total", ele apresentou um plano de paz de quinze pontos, francamente desfavorável ao Irã, que foi prontamente descartado com um comunicado provocador: "A guerra será encerrada quando assim decidirmos".
O plano, transmitido pelo Paquistão como mediador, incluía restrições severas ao arsenal de mísseis balísticos, fim total do programa de enriquecimento de urânio e controle compartilhado internacional do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo consumido globalmente. Em troca, as sanções contra o Irã seriam suspensas. Os aiatolás, no entanto, declinaram e exigiram que os americanos deixem em paz milícias como Hamas e Hezbollah e indenizem suas perdas.
Supremacia militar não resolve enroscos políticos e diplomáticos
Embora americanos e israelenses estejam vencendo no campo militar, com estimativas de que mais de 70% dos lançadores de mísseis iranianos foram inutilizados, a supremacia bélica não resolve os complicadores políticos e diplomáticos. Um deles reside nas ambições de Israel, que busca enterrar o governo xiita de seu arqui-inimigo, sem preocupação com um ponto-final imediato.
Como mais uma pressão, 2.000 paraquedistas americanos foram despachados para o Oriente Médio, com destino possivelmente na ilha de Kharg, de onde saem 90% das exportações de petróleo bruto do Irã. "Trump deixa todas as opções em aberto para depois decidir como cantar vitória", afirma Louise Kettle, do think tank RUSI em Londres.
Popularidade de Trump cai e eleições midterm ameaçam republicanos
Quanto mais a guerra se estende, pior fica a situação de Trump diante de eleitores que não veem propósito no conflito e sentem seus efeitos no bolso, com uma subida de 30% no preço do combustível nos Estados Unidos. A aprovação do presidente recuou para 36%, o nível mais baixo de seu segundo mandato, e 80% dos que o elegeram em 2024 desejam o fim imediato da guerra.
Os ventos desfavoráveis sopram em um momento crucial, com as eleições de midterm em novembro, que definirão o controle do Congresso. A guerra torna mais árdua a manutenção da maioria republicana na Câmara e no Senado, ameaçando o domínio de Trump dentro do partido. Em estados como Texas e Carolina do Norte, sinais indicam dificuldades para candidatos trumpistas, com a oposição ganhando terreno.
Descontentamento cresce entre base trumpista e aliados
A operação militar já faz tremer os pilares dos radicais do MAGA, tradicionalmente contrários a intervenções no exterior. Tucker Carlson, ex-estrela da Fox News, rompeu com a Casa Branca, chamando o conflito de "catastrófico". Outras vozes, como Megyn Kelly e Joe Rogan, expressam desgosto, acusando Trump de traição.
O descontentamento ecoa até no Salão Oval, onde o vice-presidente JD Vance mantém silêncio sobre a guerra, à qual é notoriamente contrário, em um cálculo político para não prejudicar suas ambições. Nos próximos dias, o assunto Irã deve agitar a CPAC, conferência da extrema direita global em Dallas.
Como se vê, o barril de pólvora que Trump acendeu pode explodir mais perto de casa do que ele próprio imaginou, com custos políticos elevados e ironias de figuras como o porta-voz militar iraniano Ebrahim Zolfaqari, que desdenhou: "Ele deve estar negociando consigo mesmo".



