Dinamarca rejeita perda de soberania da Groenlândia para Trump, mas aceita diálogo sobre segurança
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, declarou nesta quinta-feira (22) que está disposta a negociar a segurança da Groenlândia com os Estados Unidos e a Otan, porém rejeitou categoricamente qualquer possibilidade de perda de soberania do território autônomo dinamarquês para o presidente norte-americano, Donald Trump. O pronunciamento ocorreu em meio a tensões diplomáticas que ganharam destaque durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça.
Contexto das declarações e suspensão de tarifas
Na véspera, Trump havia reiterado que não abriria mão do controle da ilha, embora tenha descartado o uso da força. Após conversar com o secretário-geral da aliança militar ocidental, o presidente suspendeu tarifas que havia imposto a Copenhague e a outros sete aliados europeus, que enviaram um pequeno contingente militar à Groenlândia em apoio à Dinamarca. Os episódios ocorreram em Davos, onde líderes globais participam do evento econômico.
"O Reino da Dinamarca deseja continuar engajado em um diálogo construtivo sobre como podemos aumentar a segurança no Ártico, inclusive em relação ao Domo Dourado dos EUA, desde que isso seja feito com respeito à nossa integridade territorial", afirmou Frederiksen. A primeira-ministra se referia ao escudo antimísseis planejado por Trump, destacando a importância estratégica da Groenlândia.
Posição da Otan e complexidade geopolítica
Também em Davos, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, tentou afastar a discussão sobre controle territorial da pauta. Ele afirmou que o tema não foi tratado na conversa com Trump e que eventuais negociações envolverão Estados Unidos, Dinamarca e a própria aliança. Segundo Rutte, qualquer decisão sobre o aumento da presença militar na ilha caberá aos comandantes da Otan, que reúne 32 países, sendo 30 europeus, incluindo a Dinamarca.
"Não tenho dúvida de que podemos fazer isso rapidamente. Tenho esperança de que aconteça já em 2026", disse Rutte, ressaltando que a preocupação central é a defesa do Ártico diante da atuação crescente da Rússia e da China. Atualmente, uma das principais bases americanas de monitoramento de ataques nucleares da Rússia e da China está localizada em Pituffik, na Groenlândia, reforçando o valor estratégico da região.
Otimismo cauteloso e pressões internas
O tom entre os europeus é de otimismo cauteloso, apesar do discurso incisivo de Trump. O recuo de última hora, com a suspensão das tarifas de 10%, evitou uma possível retaliação comercial da União Europeia que seria discutida nesta quinta-feira. Ainda assim, permanece a dúvida sobre se a ofensiva retórica de Trump foi apenas uma estratégia de negociação, que colocou a Europa sob pressão e levantou questionamentos sobre a solidez da aliança criada pelos EUA em 1949 para conter Moscou.
A Dinamarca também enfrenta pressões internas da Groenlândia, marcada por uma história colonial sensível. "A Otan não tem mandato para negociar qualquer coisa sem nós, da Groenlândia", afirmou a parlamentar groenlandesa Aaja Chemnitz. Na primeira tentativa de diálogo com o governo Trump, a Dinamarca enviou seu chanceler e uma representante da Groenlândia a Washington, mas ouviu que os EUA não recuariam.
Antecedentes históricos e possíveis cenários futuros
Os EUA já possuem instrumentos legais para ampliar sua presença na Groenlândia. Após ocuparem a ilha durante a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas tomaram a Dinamarca, os americanos tentaram comprar a Groenlândia em 1946. A proposta foi rejeitada, mas, em 1951, Copenhague assinou um tratado com Washington que autorizou a instalação de bases militares e o acesso a recursos estratégicos.
Ao longo da Guerra Fria, milhares de soldados e diversas instalações militares foram mantidos na ilha, devido à sua posição na rota de mísseis nucleares e submarinos soviéticos. Após o colapso da União Soviética, em 1991, essa presença foi reduzida. Hoje, Pituffik concentra um efetivo entre 150 e 200 pessoas, responsáveis por radares e satélites de alerta antecipado.
Entre as hipóteses em discussão para atender às demandas de Trump está a abertura de novas bases americanas, possivelmente com apoio de aliados da Otan. Outra alternativa, mencionada por negociadores americanos, seria adotar um modelo semelhante ao de Chipre, onde o Reino Unido mantém bases consideradas territórios britânicos. A proposta, no entanto, contraria a posição defendida por Frederiksen e indica que as negociações ainda devem se estender.
Conclusão e perspectivas
"Segurança no Ártico é uma questão de toda a Otan", afirmou Frederiksen, que vinha tentando demonstrar aos parceiros a viabilidade de ampliar a presença militar na Groenlândia por meio de exercícios conjuntos organizados às pressas. A ilha é considerada estratégica por sua posição no Ártico e por ser rica em recursos minerais, incluindo cerca de 66% das reservas conhecidas de terras raras fora da China, fundamentais para a indústria de defesa e de alta tecnologia.
Líderes europeus buscaram reforçar a importância da parceria transatlântica, com o premiê alemão Friedrich Merz afirmando em discurso no fórum que, "apesar de toda a frustração e da raiva dos últimos meses, não devemos descartar rapidamente essa relação". Rutte reiterou que o tema da soberania não foi discutido e reforçou a necessidade de manter atenção à Guerra da Ucrânia, maior conflito em solo europeu desde 1945, enquanto a complexidade do impasse permanece.