Líderes democratas dentro e fora do Congresso dos Estados Unidos reagiram com veemência à ordem do presidente Donald Trump para atacar a Venezuela e capturar o presidente Nicolás Maduro. A operação, ocorrida em 4 de janeiro de 2026, foi classificada como ilegal, perigosa e inconstitucional por figuras importantes do partido, que acusam Trump de buscar distrair a opinião pública de dificuldades domésticas.
Críticas ferozes de potenciais candidatos
Sem controle do Executivo e em um momento de definição de liderança, vozes influentes do Partido Democrata, muitas vistas como potenciais candidatas à Presidência em 2028, criticaram publicamente a ação poucas horas após sua execução. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, foi direta ao afirmar que a motivação não era o combate às drogas. "Não é sobre drogas. É sobre petróleo e mudança de regime", escreveu ela, argumentando que a captura de Maduro serviria para criar uma aparência de legalidade e desviar o debate de temas como custo da saúde e escândalos envolvendo aliados de Trump.
Pete Buttigieg, ex-candidato presidencial e ex-secretário de Transportes, disse que Trump segue um "padrão antigo e previsível", no qual um presidente impopular, com problemas econômicos e perdendo apoio, decide lançar uma guerra de mudança de regime no exterior. Críticas no mesmo tom foram feitas pelo governador de Illinois, JB Pritzker, e pelo senador Chris Murphy, de Connecticut.
Pritzker alertou que a ação militar inconstitucional coloca tropas americanas em risco sem uma estratégia de longo prazo, enquanto Murphy relacionou o aumento de gastos militares aprovado no ano anterior diretamente à ofensiva na Venezuela, sugerindo que cortes em programas sociais como Medicaid teriam financiado a operação.
Veteranos de guerra e a visão sobre conflitos
Senadores com experiência militar adotaram um tom crítico baseado em suas vivências. Mark Kelly, do Arizona, classificou Maduro como um "ditador brutal e ilegítimo", mas fez um alerta crucial: a derrubada de um líder não garante estabilidade ou democracia. Seu colega de estado, Ruben Gallego, também veterano, afirmou que esta é a "segunda guerra injustificada" que presencia em sua vida adulta. Em entrevista à Fox News, Gallego foi enfático: "os americanos não querem voltar a ser uma força de ocupação nem o policial do mundo".
O deputado Ro Khanna, da Califórnia, mobilizou sua base política com a defesa de "nenhuma nova guerra estúpida" e mais tarde criticou colegas que permaneceram em silêncio, afirmando que quem não se opõe a uma guerra por petróleo falta com clareza moral e coragem para liderar.
Sanders pede ação imediata do Congresso
O senador Bernie Sanders, independente de Vermont, condenou a ofensiva em um vídeo publicado nas redes sociais. Ele afirmou que o presidente dos EUA não tem autoridade para arrastar unilateralmente o país para uma guerra, mesmo contra um ditador como Maduro, e que a operação viola a Constituição americana e o direito internacional.
Sanders pediu que o Congresso aprove com urgência uma resolução de poderes de guerra para interromper a operação militar ilegal e retomar o controle legislativo sobre decisões de guerra e paz. Ele ainda comparou a lógica usada por Washington à retórica do presidente russo Vladimir Putin para justificar a invasão da Ucrânia, chamando-a de um precedente perigoso.
O senador também criticou o que descreveu como uma reedição da Doutrina Monroe, uma "ideologia imperialista", e conectou a ação às dificuldades econômicas internas: "Enquanto quase 60% dos americanos vivem de salário em salário, o governo prefere se aventurar militarmente no exterior".
Repercussão internacional e polarização
As críticas democratas ecoam avaliações da imprensa internacional. Veículos como The Guardian e Financial Times destacaram dúvidas sobre a legalidade da operação, realizada sem autorização prévia do Congresso, e fizeram paralelos com intervenções passadas dos EUA na América Latina, como a invasão do Panamá em 1989. A agência Reuters apontou preocupação entre aliados europeus com o risco de escalada militar e instabilidade regional.
Analistas observam que a ofensiva contra Maduro aprofundou a polarização política em Washington e reacendeu o debate sobre os limites do poder presidencial em operações militares no exterior, um tema recorrente desde as guerras do Afeganistão e do Iraque. O episódio coloca em choque direto o Executivo e um Congresso que busca reafirmar seu papel constitucional em questões de guerra e paz.