Crise na Otan se aprofunda com conflito no Irã e tensões entre EUA e Europa
Aliados históricos estão em confronto direto desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, com fissuras expostas por um novo conflito que coloca em xeque até mesmo a sobrevivência da Organização do Tratado do Atlântico Norte. A guerra no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz pela liderança iraniana intensificam as divergências, revelando uma crise profunda na relação transatlântica.
Desavenças históricas e críticas renovadas
Por mais de um século, americanos e europeus enfrentaram juntos grandes guerras e crises geopolíticas, mantendo uma aliança sólida desde a criação da Otan em 1949. No entanto, a primeira passagem de Trump pela presidência em 2017 marcou o início de um desdém público pela instituição, que se aprofundou em seu segundo mandato. Nos últimos catorze meses, o líder americano intimidou aliados com tarifas, aproximou-se da Rússia de Vladimir Putin em detrimento dos interesses ucranianos e até cogitou anexar a Groenlândia, território dinamarquês e parte da Otan.
Agora, com o conflito dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, as bombas continuam a cair sobre nações como Arábia Saudita e Catar, trazendo as fissuras de volta aos holofotes com força renovada. Pressionado a encontrar uma saída honrosa para a guerra, Trump tenta cooptar os europeus para resolver o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do gás e petróleo consumidos globalmente, um gargalo que já fez os preços dispararem.
Recusa europeia e ameaças de Trump
Como nenhum país europeu se dispôs a trabalhar pela abertura da rota nevrálgica, Trump, em pronunciamento à nação na noite de quarta-feira, 1º de abril, alfinetou: “Países do mundo que usam o Estreito de Ormuz precisam fazer algo a respeito. Para esses países, muitos dos quais se recusaram a fazer parte da nossa decapitação do Irã, tenho duas sugestões: primeiro, comprem petróleo dos Estados Unidos. Segundo, criem coragem, vão ao estreito e tomem-no.” Pouco antes do discurso oficial, em entrevistas à imprensa, o presidente afirmou considerar “seriamente” sair da Otan.
O especialista em relações internacionais João Nyegray, da PUCPR, comenta: “Jamais houve na aliança tamanho descompasso.” Os europeus tentaram amenizar as críticas, com Londres sediando uma cúpula para tratar do imbróglio de Ormuz, mas isso só elevou a tensão. Emmanuel Macron, presidente francês, disparou: “A previsibilidade de países da Europa tem seu valor, diferente de certos aliados que podem te prejudicar sem mesmo dar um aviso,” referindo-se à surpresa com a incursão no Irã. Trump respondeu: “A França foi inútil.”
Consequências políticas e riscos para a unidade
A afronta maior veio do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que vetou o uso de bases espanholas para atos de guerra, fechou o espaço aéreo para aviões militares com destino ao Oriente Médio e chamou o conflito de “ilegal”. Em meio às trocas de farpas, o premiê britânico Keir Starmer saiu em defesa da Otan: “É a mais eficaz aliança militar do planeta.” Trump retrucou: “Vocês não têm nem Marinha.”
Para os líderes europeus, entrar na guerra no Oriente Médio arrisca despencar ainda mais seus índices de popularidade, já castigados pelo custo de vida elevado, que tende a piorar com o conflito. O chanceler alemão Friedrich Merz esclareceu: “A Alemanha não faz nem quer fazer parte desta guerra.” Diante das negativas, o secretário de Estado Marco Rubio classificou a Otan como “via de mão única”, sustentada por Washington “sem contrapartida”, e alertou: “Após o fim desse conflito, seremos obrigados a reexaminar a relação.”
A guerra continua sem trégua, com Trump afirmando que os combates só cessarão quando todos os objetivos forem “totalmente terminados” e prometendo levar o Irã de volta à “Idade da Pedra”. A sinfonia diplomática desafina, com Trump extrapolando o propósito original da Otan de defesa coletiva ao demandar apoio incondicional à sua agenda. Pressões americanas forçam países-membros a cumprirem a cláusula de reservar 5% do PIB para defesa, um temor constante dos europeus é que Trump abandone a Ucrânia, deixando o continente vulnerável a Putin.
Dimitris Tsarouhas, especialista em segurança da Universidade Georgetown, adverte: “Se a aliança não resolver a crise, corre o risco de implodir.” Com a Casa Branca alertando sobre uma “extinção civilizacional” na Europa, entender-se com o volátil aliado americano é um desafio que assusta o mundo, colocando em risco décadas de cooperação e segurança global.



