Onda de candidatos ligados ao 8 de Janeiro marca corrida por vagas no Congresso
Parentes, advogados e acusados de participar da tentativa de golpe de Estado vão concorrer com o apoio da família Bolsonaro. Por Hugo Marques, 17 de maio de 2026, 08h00.
Após o ataque aos prédios do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, em 8 de janeiro de 2023, 1.400 manifestantes foram presos e 850 condenados por tentativa de golpe de Estado ou associação criminosa. O rigor de algumas penas, que ultrapassam 27 anos de prisão, sempre foi motivo de controvérsia política e jurídica.
Em dezembro de 2025, o Congresso aprovou uma lei que reduzia as sentenças dos envolvidos. O presidente Lula, no entanto, vetou o projeto. Na semana passada, os parlamentares de oposição derrubaram o veto e promulgaram a lei que beneficiaria desde o ex-presidente Jair Bolsonaro à cabeleireira Débora Rodrigues, conhecida como “Débora do Batom”, sentenciada a 14 anos de prisão por tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito, golpe de Estado, dano ao patrimônio, dano qualificado e associação criminosa ao pichar uma estátua com a frase “perdeu Mané!”. Vinte e quatro horas depois, o ministro Alexandre de Moraes, atendendo a pedido de partidos governistas, suspendeu os efeitos das novas regras até que a Corte analise sua constitucionalidade.
A decisão do ministro impulsionou protestos de parlamentares que acusam o tribunal de interferir em assuntos legislativos e foi tema de pronunciamentos de três pré-candidatos à Presidência. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que o Congresso foi desrespeitado. “Não pode um único juiz derrubar a decisão do Parlamento, isso é invasão de competência, é invasão de poderes e uma afronta à democracia!”, protestou. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), acusou o ministro de ultrapassar os “limites da relação institucional” e classificou a suspensão como “um ataque à democracia e à separação dos poderes”. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), cobrou reação imediata do Legislativo. “Um juiz, que se considera intocável, atropela o Congresso e fere mais uma vez a democracia brasileira. O Senado precisa reagir”, escreveu.
Independentemente do que o Supremo decidir sobre a chamada Lei da Dosimetria, é certo que o 8 de Janeiro e seus desdobramentos estarão presentes nas campanhas eleitorais de outubro. A eleição deste ano terá dezenas de candidatos envolvidos direta e indiretamente nos episódios de 2023. São parentes de condenados, manifestantes que foram presos e advogados que atuaram no processo e agora querem um lugar no Congresso. Alguns já estão em plena campanha.
A técnica em enfermagem Cláudia Rodrigues, filiada ao Novo, pretende disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados por São Paulo e tem como principal plataforma a anistia. Seu maior ativo eleitoral é ser irmã da “Débora do Batom”. “Preciso mostrar ao Brasil que a Débora não é uma terrorista nem uma golpista. Preciso mostrar que é uma mulher honesta, de família, que tem dois filhos e foi vítima de uma injustiça que precisa ser corrigida”, ressalta.
O empresário Cleriston Pereira da Cunha foi preso logo após os ataques. Segundo a Polícia Federal, ele estava entre os manifestantes que invadiram e depredaram o Congresso. “Clezão”, como era conhecido, morreu vítima de um infarto enquanto aguardava julgamento na penitenciária da Papuda. Com o apoio da família Bolsonaro, a estudante Luíza Cunha, filha do empresário, ingressou no PL e ambiciona uma vaga pelo Distrito Federal para, segundo ela, reparar um dos maiores absurdos da história recente do país. “Foi desumano o que fizeram com o meu pai. Quero representar famílias que se sentiram injustiçadas, esquecidas e sem voz”, ressalta a estudante, que também promete voltar suas baterias contra o STF e o governo Lula.
Três advogados que atuaram no julgamento no STF também se preparam para as urnas. Sebastião Coelho e Jeffrey Chiquini defenderam Filipe Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro condenado a 21 anos de prisão. Filiado ao Novo, Coelho vai concorrer ao Senado por Brasília, escolheu o STF como mote de campanha e posta vídeos com camisa “Fora Moraes”. Chiquini, também do Novo, mira uma vaga de deputado federal pelo Paraná. O criminalista Matheus Milanez, advogado do general Augusto Heleno, ex-ministro do GSI, disputa pelo Republicanos no Distrito Federal. Milanez ganhou notoriedade ao pedir a Alexandre de Moraes que atrasasse o início da sessão, justificando que “só havia tomado café” e “gostaria de jantar”. O general foi condenado a 21 anos de prisão, mas a cena viralizou nas redes.
Entre os candidatos do 8 de Janeiro, ao menos um já conta com apoio de peso. Mariana Naime, esposa do coronel da PM Jorge Naime, condenado a 16 anos por omissão, recebeu o aval da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado e presidente do PL Mulher, para disputar vaga de deputada pelo partido no DF. “Tiraram a liberdade, o salário e a aposentadoria do meu marido, que nada teve a ver com aquilo. Essa injustiça precisa ser reparada”, diz ela.
Segundo a Associação de Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav), mais de 50 pessoas com ligação com o processo da trama golpista deverão concorrer a cargos legislativos em todo o país. A própria advogada da entidade, Carolina Siebra, que defendeu mais de 600 acusados, vai disputar vaga na Câmara dos Deputados no Ceará. Sua plataforma se concentra em críticas ao STF e às sentenças. “Hoje as pessoas entendem que as penas foram injustas. Existe um sentimento de que os acusados deveriam ser punidos pela quebradeira, mas jamais por golpe de Estado”, diz.
Na lista de aspirantes, há alguns que participaram diretamente dos atos. O jornalista Marcos Vanucci e o cientista político Gennaro Vela ficaram presos por 70 dias, foram acusados de incitação ao crime, fizeram acordo de não persecução e também tentarão um lugar no Parlamento.
Apesar da profusão de candidaturas, é pequena a probabilidade de o Congresso ter na próxima legislatura uma bancada formada exclusivamente por personagens ligados ao 8 de Janeiro. “Eles vão disputar um nicho de eleitores ocupado por políticos de direita já estabelecidos”, entende Christian Lynch, doutor em ciência política pelo IUPERJ. Depois que Alexandre de Moraes decidiu suspender os efeitos da Lei da Dosimetria, o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, anunciou que reapresentará o projeto prevendo anistia ampla, geral e irrestrita para os envolvidos. A chance de a proposta avançar é praticamente nula, mas dá aos políticos um discurso de campanha.



