José Balcázar assume presidência interina do Peru com histórico polêmico e desafios imediatos
Balcázar assume presidência do Peru com histórico polêmico

Esquerda retorna ao poder no Peru com presidente interino polêmico

O Peru tem um novo presidente interino após mais um capítulo de instabilidade política que marca o país andino. José Balcázar, político de 83 anos com um histórico controverso que inclui acusações de corrupção e defesa de teses como o casamento infantil, foi escolhido pelo Parlamento para conduzir o país até as eleições gerais marcadas para 12 de abril.

Eleição conturbada no Congresso

Balcázar venceu no segundo turno da votação parlamentar a centro-direitista Maricarmen Alva, recebendo 60 votos contra 46 de sua oponente. A eleição ocorreu após o Congresso derrubar o antecessor, José Jerí, continuando um ciclo de instabilidade que já viu nove presidentes desde 2016.

O novo mandatário foi eleito como representante do partido Peru Livre, mesma sigla que elegeu Pedro Castillo em 2021. Castillo perdeu o poder e foi condenado em 2025 por tentativa de autogolpe ao tentar dissolver o Congresso em 2022 sem sucesso.

Desafios imediatos e polêmicas do passado

Balcázar assume com a difícil missão de garantir eleições transparentes em menos de dois meses, negociar com um Congresso cada vez mais poderoso e lidar com a sombra do ex-presidente Castillo. Uma das dúvidas imediatas é se tentará indultar o ex-líder, como defendem políticos do Peru Livre.

"Nenhum perdão está na pauta. O que sei é que o ex-presidente tem um processo criminal e que deve seguir seu curso correspondente", garantiu Balcázar à imprensa, tentando afastar especulações sobre possíveis benefícios a Castillo.

O histórico do novo presidente inclui polêmicas significativas. Em 2023, como parlamentar, defendeu o casamento infantil durante debates na Comissão de Justiça e Direitos Humanos do Congresso: "Hoje em dia as pessoas não se casam, são todas uniões de fato. Desde os 14 anos, as meninas já estão grávidas. Com a lei que queremos, o que vamos fazer? Proibir aquelas pessoas que engravidam ainda menores?"

Carreira manchada e influências políticas

Balcázar também teve sua carreira no Judiciário marcada por um suposto desvio de recursos quando era juiz e membro provisório da Suprema Corte de Justiça. A Ordem dos Advogados de Lambayeque, associação de magistrados, foi contra sua candidatura à Presidência devido a essas investigações.

A imprensa peruana especula sobre o grau de influência que Vladimir Cerrón, líder do Peru Livre, terá no novo governo. Atualmente, o partido possui apenas 11 dos 130 representantes no Congresso, o que obrigou Balcázar a negociar com diferentes correntes políticas para sua eleição, incluindo parlamentares que meses antes sustentavam o mandato de Jerí.

Discurso de posse e promessas de estabilidade

Em seu discurso de posse na madrugada de quinta-feira (19), o novo presidente afirmou que sua gestão priorizará eleições transparentes e a luta contra a insegurança: "Antes de tudo, [vamos] garantir que haverá uma transição democrática, pacífica e transparente, que não haja dúvidas nas eleições; segundo, uma pacificação. [...] Precisamos pacificar este país, é uma questão de começar a trabalhar".

Balcázar também garantiu que manterá uma linha econômica estável e que "não se pode conduzir o país através de provações", acrescentando que "não vamos dar saltos no vazio".

Contexto de instabilidade institucional

A rápida destituição de José Jerí acende um alerta sobre a dificuldade que os presidentes têm para manter apoio no Legislativo peruano. A Constituição de 1990 permite ao Congresso declarar a vacância da Presidência por "incapacidade moral", um conceito vago baseado na opinião dos legisladores.

Esta ferramenta tem sido usada frequentemente como forma de pressão política, contribuindo para a instabilidade que caracteriza a última década no Peru. Dos últimos sete presidentes:

  • Quatro foram destituídos
  • Dois renunciaram antes de serem afastados
  • Apenas Ollanta Humala (2011-2016) concluiu seu mandato integralmente

A fragmentação partidária e a facilidade com que o Congresso pode destituir chefes do Executivo criam um cenário desafiador para Balcázar, que terá apenas alguns meses para preparar a transição até 28 de julho, quando o novo presidente eleito assumirá.

Reações da oposição

Keiko Fujimori, principal líder da oposição e filha do ditador Alberto Fujimori, expressou sua insatisfação nas redes sociais: "É um dia muito triste para o país. Permitiram que a esquerda radical governasse novamente. Todos sabemos quem são os irresponsáveis que nos levaram ao caos. Nunca deveriam ter aberto essa porta".

Balcázar, por sua vez, afirmou que buscará consenso e que não tem nada contra Fujimori, indicando possíveis aberturas para negociações durante seu curto mandato interino.