Em uma entrevista explosiva concedida ao jornal britânico The Guardian, o ex-astro do futebol francês e antigo presidente da Uefa, Michel Platini, disparou críticas contundentes contra o atual mandatário da Fifa, Gianni Infantino. As declarações, publicadas na quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, revelam a profundidade de uma rivalidade que se transformou em um conflito aberto no topo do futebol mundial.
De aliado a adversário: a deterioração de uma relação
Platini, que comandou a Uefa entre 2007 e 2015, não poupou palavras ao descrever seu antigo número dois na confederação europeia. Ele classificou Gianni Infantino como um "autocrata" e questionou sua capacidade de liderança à frente da entidade máxima do futebol. "Ele foi um bom número dois, mas não um bom número um", afirmou o francês, ressaltando que o trabalho competido de Infantino na Uefa não se repetiu na presidência da Fifa.
O ex-camisa 10 da seleção francesa apontou um traço de personalidade que, em sua visão, define o atual presidente: a atração por ricos e poderosos. "Fez um grande trabalho na Uefa, mas tem um problema: ele gosta dos ricos e dos poderosos, dos que têm dinheiro. Faz parte da sua natureza", declarou Platini, sugerindo que essa característica compromete a gestão equitativa do esporte.
Comparações com Blatter e a concentração de poder
Um dos momentos mais impactantes da entrevista foi a comparação feita por Platini entre as gestões de Infantino e de seu antecessor, Joseph "Sepp" Blatter. Para o francês, o período atual na Fifa é menos democrático do que na era Blatter, figura com quem ele próprio teve conflitos e que esteve no centro dos escândalos de corrupção que abalaram a entidade.
"Você pode falar o que quiser de Blatter, mas o principal problema dele era que ele queria ficar na Fifa para sempre. Ele era uma pessoa boa para o futebol", avaliou Platini, em uma defesa surpreendente. Ele atribuiu a transformação de Infantino em um autocrata especialmente ao período da pandemia de Covid-19, que, segundo sua análise, permitiu uma concentração ainda maior de poder nas mãos do presidente.
O pano de fundo de um conflito judicial
A rixa entre os dois dirigentes tem raízes profundas e está diretamente ligada à suspensão de Platini em 2015. O ex-jogador acredita que Infantino agiu para retirá-lo da corrida presidencial da Fifa naquele ano, alertando as autoridades suíças sobre um pagamento controverso.
O caso envolvia uma quantia de 2 milhões de francos suíços (cerca de 13,4 milhões de reais na cotação atual), paga pela Fifa a Platini em 2011 por ordem de Blatter, sem uma justificativa formal por escrito. Ambos foram acusados de fraude, mas foram definitivamente absolvidos pela Justiça suíça em 2025.
Essa absolvição parece ter dado a Platini uma nova liberdade para expressar publicamente seu ressentimento. Suas declarações ao The Guardian vão além de uma crítica política ou esportiva, tocando em questões pessoais e de caráter, e desenhando um retrato de um futebol global comandado por um líder que, em sua visão, despreza os princípios democráticos.
O episódio deixa claro que as feridas abertas durante a grande crise de governança da Fifa, na década passada, ainda estão longe de cicatrizar. A entrevista de Platini reacende debates sobre transparência, poder e os rumos da principal entidade do esporte mais popular do planeta, com ecos que devem repercutir por muito tempo nos corredores do poder do futebol.