A Polícia Federal (PF) investiga a suspeita de que recursos ligados a Daniel Vorcaro, do Banco Master, foram utilizados para custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde ele reside desde fevereiro de 2025. Segundo as apurações, esses valores teriam sido transferidos pela empresa Entre Investimentos e Participações, vinculada a Vorcaro, para um fundo controlado por aliados de Eduardo e sediado no Texas, nos EUA.
A mesma empresa foi usada para financiar o filme "Dark Horse" ("azarão", em inglês), que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em uma postagem em rede social nesta quinta-feira (14), Eduardo rebateu as suspeitas, classificando a história veiculada como "tosca" e afirmando que se trata de uma tentativa de "assassinato de reputação, que tenta atrelar ilicitude em patrocínio para um filme".
"A história de que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca. Meu status migratório não permitiria, se isso tivesse acontecido o próprio governo americano me puniria. No meu processo migratório expliquei às autoridades americanas toda a origem dos meus recursos e não tive qualquer problema, porque aqui não vigora um regime de exceção", declarou.
Flávio Bolsonaro confirma repasses, mas nega desvio
Mais cedo, em entrevista à Globonews, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) confirmou que os recursos pagos por Vorcaro para a produção do filme passaram pelo Havengate Development Fund, fundo registrado no Texas e representado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo. No entanto, o parlamentar negou que esse dinheiro tenha sido destinado a bancar as despesas do irmão nos EUA.
A PF pretende esclarecer se os recursos — que teriam sido enviados a pedido do dono do Banco Master — foram efetivamente usados para financiar o filme ou se uma parte serviu para custear a vida de Eduardo no país, para onde ele se mudou alegando perseguição do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Eduardo já havia reclamado de contas bancárias bloqueadas, inclusive de sua esposa.
Em entrevista à Globonews, Flávio afirmou que os recursos aportados no fundo foram integralmente usados na produção do filme. Em nota, ele disse ser "falsa a insinuação de que recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro. Os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos".
Eduardo Bolsonaro se defende
Em sua postagem, Eduardo esclareceu que "nós não somos donos do filme, mas sim os mais de uma dezena de investidores" e que "o escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos". Ele afirmou ter apresentado o advogado ao ex-deputado federal Mario Frias (PL-SP), que estava em busca de investidores para o filme, e destacou que "o filme não é um produto inexistente ou um serviço fake de advocacia, é um produto real com grandes estrelas".
Revelações do The Intercept Brasil
Na quarta-feira (13), o site The Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o filme. O ex-banqueiro teria pago R$ 61 milhões, de um total previsto de R$ 134 milhões. Um áudio de setembro de 2025 mostra o senador do PL cobrando mais recursos. Flávio confirmou ter solicitado o dinheiro, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens.
"O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público", afirmou. Em comunicado, ele disse que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, "quando o governo Bolsonaro já havia acabado e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro". Ele acrescentou: "O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme. Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem".
Produtora do filme nega repasses, mas recua
Também na quarta-feira, a Go Up Entertainment, produtora do filme, negou ter recebido repasses de Vorcaro para o projeto, assim como o produtor-executivo e ex-deputado Mario Frias. No entanto, Frias recuou nesta quinta. Em nova manifestação, o ex-deputado admitiu que houve repasses por meio da empresa Entre e afirmou que se referia anteriormente "ao fato de que Daniel Vorcaro não é e nunca foi signatário de relacionamento jurídico [com a produção], assim como o Banco Master nunca figurou como empresa investidora".
Contexto de Eduardo Bolsonaro nos EUA
Eduardo foi para os EUA no ano passado. Ele é réu no STF em uma ação sob acusação de crime de coação. A acusação aponta que ele buscou sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras com o objetivo de atrapalhar o andamento do julgamento de Jair Bolsonaro pela trama golpista. A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) foi apresentada em 21 de setembro, após a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O documento cita declarações públicas, entrevistas e postagens de Eduardo que expõem sua atuação na imposição de sanções.
Em novembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo aceitou a denúncia por unanimidade. No ano passado, Eduardo chamou a acusação de "fajuta" e disse que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, é "lacaio de Alexandre de Moraes". A defesa argumenta que não houve violência ou grave ameaça no episódio.
Flávio tenta se distanciar do escândalo
Flávio vinha buscando se descolar do escândalo do Banco Master. Após seu aliado Ciro Nogueira (PP-PI) ser alvo de operação da PF, Flávio afirmou na última sexta-feira (8) que "querem me vincular com o Ciro Nogueira, mas o Banco Master é do Lula". Há dois meses, Flávio havia negado ter tido qualquer contato com Vorcaro, quando a Folha revelou que seu número de telefone estava na agenda do ex-banqueiro.



