A primeira grande pesquisa eleitoral de 2026, realizada pela Genial/Quaest, trouxe um cenário complexo e desafiador para a direita brasileira. O levantamento, divulgado em 15 de janeiro de 2026, revela que o senador Flávio Bolsonaro, embora apareça como o nome mais viável dentro do campo conservador, carrega consigo uma das rejeições mais elevadas entre os principais potenciais candidatos. Essa combinação paradoxal coloca o grupo político diante de um dilema estratégico crucial para a disputa presidencial.
O teto eleitoral e o impasse da direita
Para o cientista político Elias Tavares, analisando os dados no programa Ponto de Vista, o ponto central da pesquisa não está apenas na liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que oscila em torno dos 40%, mas na constatação de que os dois polos da disputa podem ter atingido seus limites. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro operam próximos de seus tetos eleitorais. Enquanto o presidente não consegue romper a barreira da maioria absoluta, o senador enfrenta um obstáculo ainda mais estrutural.
A alta rejeição transforma qualquer avanço pontual de Flávio Bolsonaro em um limite difícil de ser ultrapassado. "Essa rejeição transforma o potencial eleitoral do Flávio muito provavelmente no teto dele", afirmou Tavares. Na prática, isso significa que seu crescimento tem um limite claro imposto pelos eleitores que definitivamente não votariam nele.
Flávio Bolsonaro: o candidato ideal para Lula?
A análise do cenário eleitoral aponta para um risco claro para a direita. Segundo Elias Tavares, se o campo conservador decidir concentrar todas as suas forças em uma candidatura exclusiva de Flávio Bolsonaro, estará entregando ao presidente Lula um adversário considerado "confortável" para um eventual segundo turno. "Se for a candidatura do Flávio, ela acaba sendo o candidato dos sonhos do Lula", resumiu o cientista político.
Em tese, existe a possibilidade de uma guinada para tentar reduzir essa rejeição. No entanto, o tempo joga contra. Tavares lembra que Jair Bolsonaro conseguiu diminuir sua taxa de rejeição em 2022, mas o fez utilizando a máquina do Palácio do Planalto e as vantagens inerentes ao cargo de presidente. Flávio, como candidato de oposição, não dispõe dos mesmos instrumentos. Além disso, qualquer tentativa de moderar o discurso exigiria um afastamento da lógica do bolsonarismo mais radical, que é justamente a base que hoje sustenta sua pré-candidatura.
A resistência do Centrão e a sombra de Tarcísio
A pesquisa também escancara a resistência de parte importante do espectro político. Lideranças de partidos estratégicos do Centrão, como o Progressistas, já sinalizaram publicamente seu desconforto com um discurso excessivamente ideológico e pouco agregador. O presidente do partido, Ciro Nogueira, deixou claro que só cogita apoiar Flávio Bolsonaro caso ele adote uma postura de pacificação e ampliação de alianças – movimento que, até o momento, não aconteceu.
Paralelamente, os números reforçam o papel do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como uma alternativa silenciosa. Ele aparece no levantamento com uma rejeição significativamente menor e com desempenho competitivo em cenários de segundo turno contra Lula. Para Elias Tavares, a grande incógnita dos próximos meses será justamente a pressão dos partidos para que Tarcísio entre na disputa presidencial como uma forma de bloquear a consolidação de Flávio Bolsonaro. "A grande questão será justamente essa: Tarcísio ou não Tarcísio", afirmou o analista.
O que a pesquisa revela sobre o futuro da disputa?
Mais do que simples números de intenção de voto, o levantamento da Quaest expõe um impasse estratégico profundo. A polarização política segue como força dominante no cenário, enquanto a chamada terceira via permanece frágil. A direita, por sua vez, ainda não resolveu seu dilema interno: prefere um candidato fiel à sua base ideológica mais radical ou um nome com maior potencial de atrair votos além desse núcleo e, consequentemente, vencer a eleição?
Enquanto esse debate se desenrola, o presidente Lula observa o tabuleiro político com a vantagem de quem conhece bem os adversários e os mecanismos do jogo eleitoral. A pesquisa de janeiro de 2026 não define vencedores, mas traça os contornos de uma batalha que promete ser intensa, marcada por altas rejeições e pela busca de alternativas que possam quebrar a lógica da polarização.