Flávio Bolsonaro queima filme na largada com pedido de R$ 134 milhões a banqueiro
Flávio Bolsonaro queima filme na largada com pedido de R$ 134 mi

Escândalo do áudio expõe contradições do senador

Ganha um milk shake de detergente Ypê o eleitor bolsonarista que conseguir engolir, sem engasgar, todas as incoerências e contradições existentes nas justificativas dadas pelo senador Flávio Bolsonaro sobre o áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil. A gravação trouxe ao conhecimento público uma conversa despudorada havida entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. No áudio, Flávio solicita, sem cerimônia, R$ 134 milhões ao banqueiro, que já se encontrava bastante encalacrado na ocasião.

O motivo da “pedilança” teria sido despesas supostamente enfrentadas com a produção do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, intitulado Dark Horse. A obra está em vias de ser finalizada e conta com a participação de diretor e protagonista estadunidenses. Nas primeiras entrevistas após a divulgação do áudio, Flávio reconheceu que de fato pediu recursos financeiros a Vorcaro, mas não soube dizer quem foi o destinatário final do dinheiro. Também não apresentou nenhum contrato firmado pelas partes e ainda foi desmentido pelo deputado federal Mário Frias, diretor-executivo da obra, que declarou à imprensa que a produção de Dark Horse não recebeu nenhum centavo do banqueiro.

Destino dos recursos e novas revelações

No curso das entrevistas, Flávio terminou por reconhecer que os aportes de Vorcaro tiveram destino em um fundo administrado por Paulo Calixto, advogado radicado em Dallas, Texas. Coincidentemente, Calixto serve a seu irmão, Eduardo Bolsonaro, e vem sendo fotografado há meses na mesma cidade texana. A situação levanta suspeitas sobre o real destino dos recursos e a relação entre os envolvidos.

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A considerar as dimensões e o potencial desse escândalo, se não terminar sendo substituído em sua candidatura, o senador vai acabar passando todo o período de campanha eleitoral trajado com uma armadura medieval, apenas se defendendo de ataques e denúncias decorrentes desse caso, que ainda terá muitos desdobramentos. E isso sem falar das histórias e acusações sobre sua vida pregressa no Rio de Janeiro, como o envolvimento com milicianos, a participação em rachadinhas, a sua loja de chocolates, a compra de imóveis em dinheiro vivo e as relações de proximidade com o ex-subtenente da PM Fabrício Queiroz, entre muitas outras situações nada abonadoras.

Implicações legais: corrupção passiva

Bom lembrar – sobre o teor do áudio da conversa entre o senador da República e o banqueiro – que o Artigo 317 do Código Penal Brasileiro define a conduta de corrupção passiva como o crime cometido por um funcionário público que solicita, recebe, ou aceita a promessa de vantagem indevida – em razão de sua função – para si ou para terceiros. Enfim, basta a simples solicitação da vantagem indevida para que o crime de corrupção passiva já esteja 100% consumado.

Agora é com a Polícia Federal a missão do follow the money, isto é, do rastreio dos recursos solicitados por Flávio e repassados por Vorcaro, para que sejam conhecidos seus destinatários, além da busca pela existência de algum contrato que consolide a legitimidade da solicitação. Vai ser irônico se a PF vier a descobrir que Flávio passou a perna em Vorcaro, e os recursos financeiros acabaram sendo desviados da produção do filme para custear o exílio forçado de Eduardo Bolsonaro.

Impacto político e social

Mas esse escândalo serve mesmo é para escancarar o atual estágio de abdução intelectual dos eleitores de Bolsonaro, que seguem engolindo qualquer desculpa esfarrapada para não enxergarem a realidade ululante. Também permite perceber como o campo ideológico da direita pôde ficar sequestrado ao ponto de permitir, num país com 210 milhões de habitantes, ser representado – nas próximas eleições para a Presidência da República – por um cidadão do nível moral de Flávio Bolsonaro.

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