Trump desmonta política climática dos EUA em movimento abrangente
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do Partido Republicano, apresentou nesta quinta-feira (12) uma ampla reversão da política federal americana de combate às mudanças climáticas. Ele descreveu a ação como uma vitória política contra a agenda ambiental "radical" do Partido Democrata, retomando um discurso que os republicanos já utilizaram em eleições anteriores e que pode ser reavivado às vésperas das eleições legislativas de novembro.
Fim da 'declaração de perigo' de 2009
Trump afirmou que está revogando a "declaração de perigo" adotada no governo de Barack Obama em 2009, que estabelecia que a poluição prejudica a saúde pública e o meio ambiente. Por quase 17 anos, os Estados Unidos utilizaram essa constatação científica como base legal para políticas de redução de emissões de carros, usinas de energia e outras fontes de gases que aquecem o planeta.
"Essa regra radical se tornou a base legal do Green New Scam [Novo Golpe Verde]", declarou Trump, usando uma expressão popular entre os republicanos para se referir às políticas ambientais defendidas pelos democratas. A medida marca o ponto alto de uma década de esforços conduzida por Trump e aliados para desmontar políticas que democratas e muitos especialistas consideram necessárias para conter emissões poluentes.
Discurso econômico e político
Trump, que já descreveu a mudança climática como uma "farsa" e um "golpe", descartou a base científica que sustentava a regra da era Obama. Ele concentrou sua argumentação nos impactos econômicos da revogação, sustentando que a ampliação do uso de combustíveis fósseis reduziria os custos de energia para os consumidores americanos.
O presidente destacou a indústria automobilística dos EUA como uma das principais beneficiárias, afirmando que o fim da "declaração de perigo" eliminaria um estímulo a veículos elétricos instituído por seu antecessor, Joe Biden. Trump insistiu que a medida permitiria aos consumidores economizar milhares de dólares na compra de carros novos.
Maior ato de desregulamentação
Lee Zeldin, diretor da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), anunciou a revogação ao lado de Trump e descreveu a decisão científica de 2009 como o "Santo Graal da religião da mudança climática". Ambos apresentaram a medida como um ataque a regulamentações federais consideradas excessivas.
"Esta decisão representa o maior ato de desregulamentação na história dos EUA", afirmou Zeldin, acrescentando que as políticas climáticas anteriores "estrangularam setores inteiros da economia americana". Integrantes do governo Trump afirmam que a revogação permitirá economia superior a US$ 1 trilhão e contribuirá para reduzir preços de energia e transporte.
Reações e preocupações
A reversão provocou indignação entre democratas e grupos ambientalistas. O ex-presidente Barack Obama, que raramente comenta políticas de presidentes em exercício, afirmou que a revogação tornará os americanos mais vulneráveis.
"Estaremos menos seguros, menos saudáveis e menos capazes de combater as mudanças climáticas, tudo para que a indústria de combustíveis fósseis ganhe ainda mais dinheiro", escreveu Obama nas redes sociais.
Peter Zalzal, do Environmental Defense Fund, alertou: "A medida forçará os americanos a gastar mais dinheiro, cerca de US$ 1,4 trilhão adicionais em combustível para abastecer veículos menos eficientes. Também analisamos os impactos na saúde e constatamos que a ação poderá resultar em até 58 mil mortes prematuras adicionais e 37 milhões de novos casos de asma."
Impacto na indústria automobilística
Para parte da indústria automobilística americana, a revogação pode gerar incertezas. Michael Gerrard, especialista em direito climático da Universidade Columbia, explicou: "Essa reversão consolida mudanças que já vinham ocorrendo, como o relaxamento dos padrões de eficiência de combustível. Mas coloca as montadoras americanas em uma situação delicada, porque outros países podem não querer comprar carros produzidos nos EUA."
Contexto eleitoral e opinião pública
A decisão reavivou um embate eleitoral recorrente que opôs Trump a democratas defensores do "Green New Deal". Ainda não se sabe se a estratégia ajudará os republicanos nas eleições legislativas de 2026.
Pesquisas indicam que cresce a parcela de americanos preocupados com o aquecimento global. Nos EUA, 63% dos entrevistados afirmam estar preocupados com o fenômeno, ante 37% que dizem não estar, segundo estudo de 2024 do Yale Program on Climate Change Communication. Um levantamento do Gallup em 2025 aponta que 48% dos adultos americanos consideram que o aquecimento global representará uma ameaça séria ao longo de suas vidas, o maior percentual já registrado.
Base científica contestada
Um dos principais pontos de debate sobre a revogação diz respeito à base científica que a sustenta. No ano passado, o Departamento de Energia criou um painel de cientistas para elaborar um relatório que contestava consensos amplamente aceitos sobre o impacto dos gases de efeito estufa. Diversos especialistas criticaram o grupo, afirmando que ele não era representativo e apresentava conclusões imprecisas.
Consequências jurídicas
Meghan Greenfield, ex-advogada da EPA e do Departamento de Justiça, explicou: "A 'constatação de perigo' realmente serviu como pedra angular da regulação de gases de efeito estufa nos EUA, abrangendo todos os setores. Agora, Estados e organizações sem fins lucrativos provavelmente ingressarão com ações em tribunais estaduais para definir os limites desse novo cenário jurídico."
Alguns analistas jurídicos acreditam que uma contestação judicial pode ser parte da estratégia do governo, com a intenção de levar o caso à Suprema Corte antes do fim do mandato de Trump. "Se eles vencerem a questão nos termos apresentados à Suprema Corte, um governo de um novo presidente não poderia alterar essa posição sem a aprovação de nova legislação", afirmou Greenfield.
Esta não é a primeira vez que Trump adota reversões nesta área. Em seu primeiro mandato, ele revogou diversas normas energéticas e ambientais da era Obama e retirou os EUA do Acordo de Paris. No início de seu segundo mandato, em 2025, Trump repetiu a medida ao desfazer a decisão de Biden de reintegrar os EUA ao pacto climático.



