Petrobras interrompe perfuração na Foz do Amazonas após vazamento; sociedade civil propõe fim de leilões de petróleo
Petrobras para perfuração na Foz do Amazonas após vazamento

Petrobras paralisa atividades na Foz do Amazonas após incidente; sociedade civil apresenta plano para reduzir dependência de petróleo

A Petrobras suspendeu as operações de perfuração na região da Foz do Amazonas após a ocorrência de um vazamento, em um momento crucial em que organizações da sociedade civil entregaram ao governo federal um conjunto abrangente de recomendações para a elaboração do mapa do caminho doméstico de redução da dependência de combustíveis fósseis. O documento, divulgado nesta quarta-feira (28) pelo Observatório do Clima – uma rede que reúne 161 organizações – propõe medidas audaciosas para reorientar a política energética do país.

Propostas para uma transição energética justa e sustentável

Entre os pontos centrais das recomendações está a criação de um calendário para o encerramento dos leilões de petróleo no Brasil, visando interromper a expansão da exploração de combustíveis fósseis. Além disso, o relatório sugere a definição de zonas de exclusão para atividades de exploração em áreas consideradas socioambientalmente sensíveis, com destaque para a Margem Equatorial, especialmente a região da Foz do Amazonas. O texto é claro ao afirmar que novos empreendimentos nessas áreas não devem fazer parte do planejamento energético nacional.

Contexto internacional e resistências

As contribuições devem subsidiar o plano que o governo federal precisa estruturar a partir de um despacho presidencial assinado após o encerramento da COP30. O prazo para apresentação das diretrizes do mapa do caminho é 6 de fevereiro. Esta iniciativa ganha relevância após o chamado roadmap para o fim do uso dos combustíveis fósseis não ter sido incorporado aos textos finais da Conferência do Clima em Belém, devido à resistência de países produtores de petróleo.

Mesmo assim, a presidência da COP avisou que vai seguir trabalhando nos documentos até a próxima COP, na Turquia, ao fim deste ano. "O roadmap vai ser uma iniciativa da presidência brasileira. [...] Não fica no texto", afirmou o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, em novembro do ano passado.

Recomendações técnicas e alternativas energéticas

No campo técnico, o relatório do Observatório do Clima sugere que a demanda doméstica futura por petróleo seja atendida com os campos atualmente em operação, sem a realização de novos leilões. O texto também recomenda que o governo estime qual seria a produção mínima necessária para setores que ainda não conseguem substituir integralmente o uso de combustíveis fósseis.

Como alternativas à redução do uso de combustíveis fósseis, o documento aponta:

  • Otimização da geração hidrelétrica existente, sem a construção de novos reservatórios.
  • Uso de tecnologias como a geração fotovoltaica em espelhos d’água de usinas.
  • Ampliação do uso de alternativas no transporte de cargas, como biometano, biodiesel, diesel verde, etanol, hidrogênio e eletrificação.

O texto informa que não recomenda investimentos em tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono, citando custos, riscos tecnológicos e limitações de escala.

Críticas e urgência na implementação

"O Brasil precisa de progressos reais para se engajar de vez na eliminação dos combustíveis fósseis. Se o governo se limitar à esfera narrativa não sairemos do lugar, e no setor de energia isso tem ocorrido", afirma Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima. "Esse esforço também deve orientar a postura do país nos posicionamentos multilaterais. Independentemente do caos político e de segurança alimentado pelo presidente Trump, as discussões sobre como abandonar a dependência dos fósseis devem continuar. A barbárie não pode prevalecer."

Dados econômicos e regulatórios

Na área regulatória, o relatório apresenta dados alarmantes sobre subsídios federais aos combustíveis fósseis, que somaram R$ 47 bilhões em 2024, segundo o levantamento incluído no documento. As organizações sugerem a revisão desses incentivos e o fortalecimento de fóruns especializados, como o Fórum Nacional de Transição Energética.

No campo econômico, as recomendações incluem:

  1. Eliminação gradual de subsídios aos combustíveis fósseis.
  2. Revisão da política exploratória da Petrobras.
  3. Suspensão de novos leilões como instrumento de gestão de risco de ativos encalhados.
  4. Ampliação de investimentos em energias renováveis.

O documento também propõe a elaboração de um plano nacional de descomissionamento de infraestruturas fósseis, com cronogramas definidos, e a inclusão de políticas voltadas à requalificação profissional de trabalhadores e à participação de comunidades afetadas. Além disso, menciona a incorporação de conceitos como racismo ambiental, racismo energético e pobreza energética no planejamento das políticas do setor.

Com a paralisação da Petrobras na Foz do Amazonas e as pressões da sociedade civil, o debate sobre a transição energética no Brasil ganha novos contornos, exigindo ações concretas e imediatas do governo federal para alinhar o país aos compromissos climáticos globais.