Governo Federal revoga decreto sobre Tapajós após 33 dias de ocupação indígena
Governo revoga decreto do Tapajós após ocupação indígena

Governo Federal revoga decreto sobre estudos no Rio Tapajós após pressão indígena

A revogação do Decreto 12.600 foi publicada no Diário Oficial da União ainda na noite de segunda-feira, 23 de setembro, confirmando a decisão do governo federal de anular a medida que autorizava estudos para empreendimentos na região do Rio Tapajós. A publicação oficial ocorreu após intensa mobilização de comunidades indígenas que durou 33 dias e reuniu representantes de 17 etnias diferentes dos estados do Pará e Mato Grosso.

Ocupação histórica e negociação direta com o governo

Apesar da publicação imediata da revogação, os indígenas que ocupavam a área de acesso ao porto da Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, solicitaram um prazo adicional de 48 horas para concluir a desocupação completa do local. Durante o período mais intenso do protesto, aproximadamente 1.200 pessoas estavam acampadas na área, incluindo homens, mulheres e crianças de diversas comunidades tradicionais.

Segundo as lideranças indígenas, o prazo extra é fundamental para garantir uma retirada organizada e segura de todos os participantes, além da desmontagem adequada das estruturas improvisadas que foram montadas durante o longo período de ocupação. A decisão de revogar o decreto foi tomada pessoalmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva após reunião direta com representantes indígenas e ministros do governo federal.

Contexto do decreto revogado e fundamentos da contestação

O Decreto 12.600 havia sido publicado originalmente em agosto de 2025 e tratava especificamente de estudos técnicos e viabilidade relacionados a possíveis empreendimentos na região do Tapajós. Desde sua publicação, o texto vinha sendo fortemente contestado por movimentos indígenas e organizações da sociedade civil, que alegavam violação direta do direito à consulta prévia, livre e informada.

Os críticos apontavam que o decreto federal desrespeitava a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, que estabelece a obrigatoriedade de consulta às comunidades tradicionais afetadas por projetos de desenvolvimento em seus territórios. A ausência desse processo consultivo foi o principal motivador da ocupação prolongada que culminou na revogação da medida.

Envolvimento ministerial e próximos passos

A reunião decisiva que antecedeu a revogação contou com a presença de importantes figuras do governo federal, incluindo os ministros Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, e Sônia Guajajara, do Ministério dos Povos Indígenas. A participação direta dessas autoridades demonstrou a prioridade dada pelo governo à resolução do conflito e ao diálogo com as comunidades tradicionais.

Com a publicação oficial da revogação no Diário Oficial, as lideranças indígenas consideram que sua principal reivindicação foi atendida satisfatoriamente. No entanto, reforçam que a saída do local será realizada de forma gradual e cuidadosa, respeitando integralmente o prazo de 48 horas que foi formalmente solicitado às autoridades públicas competentes. O episódio marca um capítulo significativo na relação entre o governo federal e os povos indígenas brasileiros, destacando a importância dos mecanismos de participação social nas decisões sobre desenvolvimento territorial.