Relatório da ONU aprovado por 150 países alerta: economia atual leva ao colapso planetário
Um diagnóstico alarmante endossado por mais de 150 países desafia o paradigma econômico vigente: a busca desenfreada pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) está corroendo a base natural que sustenta a própria economia global. Esta conclusão consta de um relatório aprovado no domingo (8), em Manchester, Reino Unido, durante a cúpula da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), organismo ligado à ONU.
Capital natural reduzido em quase 40%
O estudo, elaborado ao longo de três anos por quase 80 cientistas e especialistas em economia e indústria, revela que o atual modelo econômico global falha em incorporar o valor da biodiversidade e dos ecossistemas. Como resultado, empresas e governos continuam tomando decisões que destroem florestas, solos, rios e oceanos sem arcar com os custos reais dessa degradação.
Segundo o relatório, o chamado “capital natural”, que inclui recursos naturais e serviços prestados pelos ecossistemas como polinização, regulação do clima e filtragem da água, já encolheu quase 40% em nível global. Esta redução alarmante expõe uma contradição central: enquanto setores como agricultura, farmacêutico, energia e mineração dependem diretamente da natureza, o mercado não precifica adequadamente os riscos da perda de biodiversidade.
PIB sob contestação e distorções econômicas
O estudo afirma explicitamente que o foco no crescimento do PIB como principal indicador de sucesso econômico contribuiu para a degradação ambiental. “O PIB mede produção e consumo, mas ignora perdas de estoque natural”, destaca o documento. Quando uma floresta é derrubada para dar lugar a pasto ou mineração, o impacto ambiental não aparece como perda nas contas nacionais – apenas o aumento da atividade econômica é registrado.
Os dados reforçam essa distorção. De acordo com informações complementares do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), cerca de US$ 7,3 trilhões foram destinados em 2023 a atividades consideradas “negativas para a natureza”, como subsídios a combustíveis fósseis e agricultura intensiva. Em contraste, apenas US$ 220 bilhões foram direcionados a iniciativas favoráveis à conservação e restauração ambiental.
Risco sistêmico e necessidade de mudança estrutural
Organizações não governamentais e cientistas vêm alertando que a perda de biodiversidade representa risco sistêmico para a economia global. Eventos extremos como secas, enchentes e ondas de calor são intensificados pela degradação ambiental, afetando cadeias de suprimento e elevando custos para empresas e governos.
O relatório não propõe apenas ajustes marginais, mas uma transformação estrutural na forma como a economia global mede sucesso e distribui incentivos. “É preciso criar mecanismos que alinem incentivos econômicos à proteção ambiental”, afirmou Stephen Polasky, professor de economia ambiental da Universidade de Minnesota e copresidente do relatório, durante coletiva de imprensa.
Contexto geopolítico e futuro das negociações
A IPBES cumpre papel semelhante ao do IPCC no campo climático, reunindo avaliações científicas periódicas para orientar políticas públicas globais. No entanto, o contexto geopolítico se tornou mais complexo com a recente retirada dos Estados Unidos tanto da IPBES quanto do IPCC.
Ainda assim, a aprovação do relatório por mais de 150 países sinaliza que a biodiversidade ganhou status estratégico nas negociações internacionais, especialmente após o acordo global firmado em 2022, em Montreal, que estabeleceu a meta de proteger 30% das áreas terrestres e marinhas até 2030.
A mensagem central do documento é clara: sem reformar os mecanismos que orientam mercados e políticas públicas, a destruição ambiental continuará sendo financeiramente recompensada, enquanto o próprio crescimento econômico ficará ameaçado pela erosão do capital natural que o sustenta.



