Papa Leão XIV admite papel da Igreja na escravidão e pede desculpas históricas
Papa Leão XIV pede desculpas por escravidão

O papa Leão XIV fez um pedido de desculpas histórico pela legitimação da escravidão pela Igreja Católica. A retratação em nome da Santa Sé foi publicada nesta segunda-feira, 25, em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade, em português), que aborda os desafios impostos pela inteligência artificial (IA). Embora a Igreja Católica já tenha repudiado seu papel na subjugação de populações da África e das Américas, trata-se da primeira vez que um pontífice reconhece publicamente o erro.

Reconhecimento histórico e pedido de perdão

“É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e a humilhação suportados por tantos, em nítido contraste com a sua imensurável dignidade como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor”, escreveu Leão. “Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.” A admissão ocorre após anos de pressão de ativistas, acadêmicos e católicos negros. No documento, o papa salientou que há muito a Igreja Católica defende a dignidade de todo ser humano, “mesmo que tenha levado dezoito séculos para que sua plena incompatibilidade com a escravidão fosse explicitamente reconhecida”.

Contexto histórico e bulas papais

A permissão para que povos fossem oprimidos esteve presente em várias bulas papais, como uma de 1452 emitida por Nicolau V, na qual concedia ao rei português o direito de “invadir, conquistar, combater e subjugar” e tomar as posses de “sarracenos, pagãos, outros infiéis e inimigos do nome de Cristo” ao redor do mundo. O pontífice, na ocasião, também autorizou “reduzir as suas pessoas à escravidão perpétua”. Junto a outra emitida por ele três anos depois, a Romanus Pontifex, as orientações formaram a base da Doutrina da Descoberta, que legitimou a apropriação territorial na África e nas Américas sob a alegação de que o direito à terra estava condicionado à fé cristã. Séculos mais tarde, em 2023, o Vaticano repudiou a Doutrina. No entanto, nunca revogou, anulou ou pediu desculpas pelas bulas.

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Reconhecimento público e reflexão

Até agora, o argumento era de que a partir de 1537, quando foi emitida a bula Sublimis Deus, a Santa Sé passou a reconhecer que indígenas “de modo algum devem ser privados de sua liberdade ou da posse de seus bens, mesmo que estejam fora da fé em Jesus Cristo; e que podem e devem, livre e legitimamente, desfrutar de sua liberdade e da posse de seus bens; nem devem ser escravizados de forma alguma”. Na encíclica divulgada nesta segunda, Leão relembrou que o seu homônimo, o papa Leão XIII, foi o primeiro a explicitamente condenar a escravidão em 1888. Ele também explicitou os vínculos da Igreja com a opressão, afirmando que “já no início da Idade Moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo aos pedidos dos soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de ‘infiéis'”. O pontífice disse que não é possível “negar ou minimizar a demora com que tanto a sociedade quanto a igreja vieram a denunciar o flagelo da escravidão”. O histórico do Vaticano, segundo Leão, “constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar dissociados”. Por fim, instou os fiéis a rejeitarem todas as formas de tráfico da revolução tecnológica digital para “evitar a necessidade de pedir perdão novamente no futuro por termos falhado em respeitar o tesouro da dignidade humana que é exigido por nossa fé”.

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