O problema crescente do uso de hormônios na cultura fitness
Em meio à pressão estética e à normalização de corpos biologicamente improváveis, o uso de esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento, insulina e outros compostos tornou-se comum. Especialistas alertam que jovens estão morrendo em academias, vestiários e competições devido a complicações agudas e silenciosas.
A monetização do corpo e a invisibilidade da farmacologia
Existe um modelo econômico baseado na monetização do corpo. Corpos hipertróficos geram atenção, engajamento e lucro. A farmacologia desaparece da narrativa porque sua invisibilidade sustenta o valor comercial da fantasia. A pressão estética vira produto, e a insuficiência corporal vira mercado.
Jovens médicos e estudantes de medicina veem influenciadores transformando testosterona e protocolos suprafisiológicos em linguagem cotidiana. A fisiologia humana passa a ser tratada como insuficiente e otimizável, enquanto complicações fatais se instalam.
Os riscos específicos da insulina e das combinações perigosas
A insulina, vital para diabéticos, é letal quando usada sem necessidade. Pequenos erros de dose podem causar hipoglicemia grave, convulsões e morte. Quando combinada com esteroides, restrição alimentar, estimulantes e diuréticos, cria-se um ambiente biologicamente instável. A cultura contemporânea interpreta esses desfechos como fatalidades isoladas, mas não são.
O ecossistema que lucra com a ambiguidade
Influenciadores monetizam corpos extremos, clínicas transformam ansiedade em recorrência financeira, cursos simplificam endocrinologia em protocolos rasos, e farmácias manipulam substâncias controversas. É necessário discutir soluções concretas, como o fisiculturismo natural, que reduz drasticamente a exposição à polifarmácia.
Soluções: educação, regulação e vigilância
Precisamos recuperar a medicina baseada em evidência no debate hormonal. Hormônios não podem ser tratados como ferramentas recreativas. Publicidade indireta e venda disfarçada de otimização hormonal devem ser enfrentadas com rigor técnico e ético. A educação médica formal precisa ser fortalecida, e a banalização da endocrinologia em cursos rápidos deve ser combatida.
Estratégias de educação pública para adolescentes devem usar linguagem científica clara. O adolescente atual é influenciado por algoritmos, influenciadores e discursos aparentemente legitimados. Avanços em farmacovigilância e vigilância epidemiológica são essenciais para subnotificação de eventos adversos.
Recuperando o conceito de saúde
Aparência física não é sinônimo de saúde metabólica ou cardiovascular. Vivemos uma era em que corpos farmacologicamente amplificados representam sucesso e superioridade biológica. Quando a sociedade transforma fenótipos extremos em padrão aspiracional, o problema deixa de ser apenas endocrinológico – torna-se de saúde pública, regulatório e legal.
Clayton Macedo é coordenador do Núcleo de Endocrinologia do Exercício da UNIFESP e diretor da SBEM.



