O Jornal Nacional está na China, país que se tornou o centro de uma transformação histórica. Sob qualquer perspectiva — econômica, militar ou tecnológica —, os chineses ganharam protagonismo em velocidade e escala inéditas. O que acontece hoje por lá influencia a vida de bilhões de pessoas em todo o planeta. A partir de agora, o público conta com o olhar brasileiro de dois correspondentes da Globo que estão morando na China: Felipe Santana e Lucas Louis.
O Rio Huangpu corta a cidade de Xangai. O bairro de Pudong, centro financeiro da cidade e do país, foi erguido em poucos anos. Na manhã chuvosa de terça-feira (28) em Xangai, a chuva — que em mandarim tem o mesmo som da palavra 'dinheiro' — é vista como sinal de boa sorte, pois lava as coisas ruins e traz o novo. 'Exatamente isso que a gente quer no decorrer dessa semana: mergulhar nessa cultura de sabedoria milenar que, neste momento, está planejando o futuro', afirma o correspondente Felipe Santana.
A série propõe uma grande viagem por cinco megacidades chinesas — uma por dia —, mostrando como cada uma é fundamental para o projeto que a China está erguendo. 'Seja robôs humanoides, placas solares, inteligência artificial... A gente vai a Pequim, que é a central do controle', explica Santana. A jornada começa por Xangai, que além de centro financeiro é a vitrine da China para o mundo, onde as decisões de Pequim são sentidas primeiro pela população.
'Os xangaienses, a gente já percebeu, são muito orgulhosos. Eles dizem que existe Xangai e existe o resto da China. É como se fosse a Nova York deles ou São Paulo e Rio de Janeiro juntas', conta Santana. Xangai é uma cidade antiga, marcada por batalhas violentas e recomeços. O olhar ocidental sobre a China muitas vezes é carregado de preconceito. Por isso, a proposta do primeiro episódio é usar Xangai como porta de entrada para algo simples: olhar.
Às vezes, a cidade lembra São Paulo; de outro ângulo, talvez o Rio de Janeiro ou Nova York. Mas na maior parte do tempo não parece nada disso. 'Não dá para olhar para China com a cabeça formada do outro lado do mundo, que por milênios tenta entender esse país tão distante', destaca a reportagem. O nome 'China' nem é o nome do país; é Zhōngguó, que significa 'Reino do Meio', baseado na ideia de que a civilização mais evoluída está nessa terra. No mapa-múndi chinês, eles estão no centro do mundo.
Historicamente, os chineses consideravam os povos ao redor como bárbaros e construíram a Grande Muralha para evitar invasões. Mas sempre souberam que os bárbaros adotariam a cultura chinesa — sua língua, escrita e filosofia. A cultura chinesa é a mais antiga civilização contínua do planeta, com pelo menos 5 mil anos. Muitos elementos, como jardins e arquitetura, que pensamos ser japoneses ou coreanos, na verdade nasceram na China. Coreia e Japão adotaram a forma de escrever chinesa.
Os vizinhos nunca gostaram de ser tratados como bárbaros. O nome 'China' veio dos persas, depois adotado por gregos e romanos, derivado da dinastia Qin (pronunciada 'Chin'). Já a língua principal não é o 'mandarim' — termo que os portugueses criaram a partir do malaio 'mantrins' (ministros), chamando os oficiais chineses de 'mandarins'. O país tem 300 línguas e dialetos unificados.
Na época das navegações, navios portugueses, ingleses, holandeses, espanhóis e japoneses chegaram. Os chineses cederam apenas o porto de Cantão para comércio, mas não se interessavam em comprar daqueles que vinham de longe. A Inglaterra, insatisfeita com o desequilíbrio comercial, começou a vender ópio, causando vício em massa. Quando a China tentou proibir, a Inglaterra declarou guerra, venceu e tomou Hong Kong. Os chineses foram forçados a assinar um tratado considerado injusto e abrir novos portos, incluindo Xangai, já habitada há 6 mil anos e fundada como cidade em 1290.
Após a Guerra do Ópio, Xangai cedeu partes de seu território a potências estrangeiras: ingleses, americanos e franceses. A concessão francesa, com mansões antigas e ruas arborizadas, atrai turistas de todo o mundo. Xangai tornou-se a cidade mais cosmopolita da China. Depois de se reerguer do que chama de 'século da humilhação', acabou com as concessões estrangeiras e hoje é a vitrine da China moderna: a maior megacidade do país, com trens de levitação magnética, skyline futurista, carros elétricos e robôs. É o centro financeiro da segunda maior economia do mundo e o maior porto, com muitas conexões aéreas.
Por isso, a base do Jornal Nacional na China, pelos próximos meses, será Xangai. Mas a equipe também vai viajar: nesta semana, conhecerão outras quatro megacidades. A proposta é um novo olhar sobre essa civilização, diferente do olhar americano, que, como a Inglaterra no passado, se incomoda com a balança comercial e o orgulho chinês. 'Vai ser um olhar brasileiro, que tenta encaixar em algumas paisagens São Paulo, nas outras, o Rio de Janeiro. Mas que rapidamente aprende que está em um novo mundo, que a passos largos caminha para nos contar como será o futuro', conclui a reportagem.
Na terça-feira (28), o correspondente Felipe Santana viaja para Hangzhou — a cidade que está redefinindo o que a China é capaz de fazer em tecnologia.



