O Irã completou 83 dias de apagão da internet, o mais longo já registrado em um país conectado digitalmente. Poucas horas após o início dos ataques de Israel e Estados Unidos contra o país, em 28 de fevereiro, o governo bloqueou o acesso a todos os sites estrangeiros. Em janeiro, durante uma onda de protestos que deixou milhares de mortos, a rede já havia ficado bloqueada por 20 dias.
Contexto do bloqueio
Segundo a NetBlocks, organização que monitora censura à internet, o apagão iraniano superou o bloqueio em Mianmar durante o golpe de Estado em 2021, que durou 72 dias. Integrantes e pessoas próximas ao governo iraniano argumentam que a censura é necessária por segurança. Primeiro, porque forças israelenses e americanas teriam usado rastreamento de celular para localizar líderes militares assassinados no início da guerra. Segundo, porque a internet e as redes sociais estariam sendo usadas por potências estrangeiras para insuflar uma tentativa de golpe.
VPNs e custos
Anteriormente, redes sociais como Instagram e aplicativos como WhatsApp já eram bloqueados no país, mas boa parte da população usava VPNs (Redes Privadas Virtuais) para burlar a restrição. Desde o início da guerra, o preço das VPNs confiáveis explodiu. Os custos variam conforme o consumo de gigabytes, mas hoje é preciso desembolsar cerca de US$ 5 a US$ 10 por mês, segundo iranianos ouvidos pela reportagem. No ano passado, US$ 0,20 era suficiente, e era possível obter configurações gratuitas em comunidades do Telegram. Agora, em um país onde o salário mínimo é cerca de US$ 70, grande parte da população fica sem acesso.
Quem não tem VPN só consegue acessar a internet iraniana, separada da global. São aplicativos de mensagens, sites de comércio eletrônico, redes sociais e mecanismos de busca locais, além de veículos de notícia autorizados. O único site estrangeiro acessível é a busca do Google, mas todos os resultados não iranianos estão bloqueados, até a Wikipédia.
Impactos econômicos e sociais
Os principais prejudicados são pequenos empresários que dependiam da internet para trabalhar, como comerciantes que vendiam produtos no Instagram e profissionais liberais. Um professor de inglês contou que dava nove aulas por dia online, metade para alunos estrangeiros, e perdeu todos eles. Zeynab Dezfouly fazia 70% das vendas de suas bolsas e chapéus de crochê pelo Instagram; com o bloqueio, passou a vender na rua, em mercados e em um site local, mas acumula perda de 50% no faturamento.
Há cerca de um mês, o governo lançou o Internet Pro, um serviço especial para empresários autorizados, com acesso pago e mediante triagem. Críticos chamam a rede de "internet por classes". Já existe um mercado paralelo para venda de Internet Pro a pessoas não qualificadas, com preços ainda mais altos. Além disso, políticos, veículos de imprensa, diplomatas e pessoas com boas conexões conseguem "SIM cards brancos", que dão acesso irrestrito.
Desde janeiro, o governo confisca e prevê prisão para quem tiver acesso não autorizado via Starlink, empresa de Elon Musk. Pessoas ligadas ao governo afirmam que a internet continuará bloqueada por tempo indeterminado, pois é vista como ameaça à segurança nacional. A China é modelo, com sua grande muralha digital, que bloqueia sites estrangeiros e mantém plataformas locais sujeitas a monitoramento e censura.
Reação dos jovens
Os jovens iranianos estão entre os mais insatisfeitos. "Tiraram a nossa felicidade", disse Paniz, 19, estudante que usava TikTok e Instagram. Agora, só os acessa raramente, pois não tem dinheiro para VPN. Rahim, dono de uma banca de nozes no Grand Bazaar de Teerã, usa VPN e paga US$ 6 por 15 dias. Ele acompanha contas de Donald Trump e informações do governo iraniano para comparar discursos, mas acha injusto saber que muitos não podem pagar.
Repressão além da internet
O acesso à internet não é o único alvo de repressão. Desde o início da guerra, Teerã aumentou prisões, execuções e confiscos. Segundo o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, ao menos 21 pessoas foram executadas e mais de 4.000 presas por acusações de segurança nacional desde o final de fevereiro. Os executados eram acusados de ligação com protestos, oposição ou espionagem.
O comandante geral da polícia, general Ahmad-Reza, anunciou a prisão de 6.500 "espiões e traidores" desde o início da guerra, muitos ligados aos protestos de janeiro. O secretário de Justiça do Azerbaijão Ocidental, Nasser Atabati, anunciou o confisco de bens de 129 pessoas consideradas ameaças à segurança. "Ações decisivas contra traidores e mídia hostil vão continuar."
Um dos presos foi o jornalista japonês Shinnosuke Kawashima, chefe da sucursal da TV NHK em Teerã, detido com um colega iraniano em 20 de janeiro após cobrirem protestos. Após negociações entre Irã e Japão, foi solto sob fiança em abril e está em prisão domiciliar, aguardando julgamento. Nesta quinta-feira (21), a Justiça iraniana anunciou a execução de dois homens acusados de integrar grupos terroristas separatistas envolvidos em ataques e complôs de assassinato no oeste do país.



