Lula demonstra incômodo com Toffoli e gera temor de interferência no Judiciário
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou transparecer um profundo desconforto com o ministro do Supremo Tribunal Federal, José Antônio Dias Toffoli, relator do caso das fraudes no Banco Master. A situação, que veio à tona nesta segunda-feira, 26 de janeiro de 2026, levanta sérias preocupações sobre uma possível interferência indevida do Executivo no Poder Judiciário, especialmente em um ano eleitoral marcado por tensões políticas.
Pesquisas revelam eleitorado apreensivo com corrupção
Dados recentes de institutos como Quaest/Genial e AtlasIntel/Bloomberg mostram que o eleitor brasileiro não está alheio aos escândalos que assolam Brasília. Sete em cada dez cidadãos aptos a votar em outubro antecipam um grande escândalo de corrupção. Para dois terços do eleitorado, a corrupção retornou ao topo dos maiores problemas nacionais, equiparando-se à violência urbana e às deficiências no serviço público de saúde.
Essa percepção pública está diretamente ligada ao volume crescente de casos policiais com ramificações políticas. Entre os mais recentes, destacam-se as fraudes no INSS, a venda de títulos falsos do Banco Master e a lavagem de dinheiro do PCC em fundos de investimento da corretora Reag. Um padrão comum nesses esquemas é o encobrimento proporcionado por conexões influentes no Congresso, no governo e no próprio Judiciário.
Conexões políticas do Banco Master
O Banco Master, conforme investigações, mantinha uma extensa rede de contatos privilegiados com figuras influentes de partidos tanto à direita quanto à esquerda, incluindo Progressistas, União Brasil, Republicanos e Partido dos Trabalhadores. A habilidade no manejo dessas relações levou os sócios Daniel Vorcaro e Augusto Lima até a sala do presidente Lula no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024.
A reunião foi articulada por Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e consultor do banco, e contou com a presença do chefe da Casa Civil, Rui Costa, e do ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira. Lula também convocou Gabriel Galípolo, diretor do Banco Central por ele indicado. Naquele momento, a ruína financeira do Master já era um assunto conhecido no mercado, com o Itaú tendo proibido o repasse de seus títulos.
Defesa preventiva de Lula e tensão com Toffoli
Um ano após a reunião, Lula antevê uma crise institucional e ensaia uma defesa preventiva. Em comício em Maceió, declarou: "Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado, enquanto um cidadão, como esse do Banco Master, que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões". E completou: "Então, companheiros, e tem gente que defende (o banqueiro) porque também está cheio de gente… que falta um pouco de vergonha na cara nesse país."
Preocupados com o impacto eleitoral da crise, assessores do presidente relataram à repórter Catia Seabra comentários raivosos de Lula sobre o ministro Toffoli. Toffoli, que já era relator do caso Master, foi chamado por Lula no mês passado para discutir a fraude bancária. Aparentemente, o almoço entre os dois começou com entendimento, mas terminou em desentendimento após a sobremesa.
Sugestão de afastamento e resposta do STF
Nesta segunda-feira, Lula vazou o impulso de sugerir a Toffoli, seu antigo colaborador, que se afaste do caso, se licencie do tribunal, se aposente ou até renuncie à toga do STF. A situação é considerada esquisita sob qualquer ângulo, pois o incômodo presidencial poderia configurar uma interferência inconstitucional de um poder republicano em outro.
A resposta do Supremo veio de forma indireta, através do ministro Gilmar Mendes. Em rede social, ele divulgou um lembrete conciso: "A preservação da independência judicial e o respeito às instâncias institucionais são condições indispensáveis para o diálogo republicano e para a confiança da sociedade nas instituições." A mensagem reforça a necessidade de manter os pilares da democracia e a separação dos poderes, especialmente em momentos de alta tensão política.