Brasileiros na Guerra da Ucrânia: Arrependimento e Trauma Após 4 Anos de Conflito
Brasileiros na Guerra da Ucrânia: Arrependimento e Trauma

Brasileiros na Guerra da Ucrânia: Arrependimento e Trauma Após 4 Anos de Conflito

Quatro anos após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, um fenômeno preocupante continua a atrair jovens brasileiros para o front europeu. O que leva cidadãos, especialmente baianos, a abandonarem carreiras, famílias e a segurança do Brasil para enfrentar um conflito armado a milhares de quilômetros de distância? Uma investigação revela histórias marcadas por arrependimento profundo, perdas irreparáveis e traumas psicológicos que persistem mesmo após o retorno ao país.

Promessas de Fortuna e a Realidade da Guerra

O Fantástico localizou quatro ex-combatentes baianos que chegaram a empunhar armas contra as forças russas, desvendando um cenário de ilusões quebradas. João Victor de Jesus Teixeira, conhecido pelo codinome "Arcanjo", gravou vídeos de recrutamento convocando outros brasileiros para a luta. Hoje, expressa remorso: "Eu me arrependo muito de ter ido e de ter chamado pessoas. Vi muitos amigos morrerem. Ali percebi que a guerra não era para mim".

Marcos, produtor musical, embarcou na aventura atraído pela promessa de ganhos financeiros elevados que nunca se materializaram. Seduzido por ofertas de salário de "50 mil", imaginou valores em reais, mas descobriu tratar-se de grívnias, moeda local equivalente a pouco mais de R$ 5 mil. "O que vem na cabeça é real. Falam '50 mil' e você acredita", lamenta.

Inexperiência Militar e Consequências Devastadoras

Redney, outro baiano, nutria o sonho de se tornar militar, frustrado pela impossibilidade de ingressar no Exército brasileiro. Sem qualquer experiência prévia, partiu para a Ucrânia movido por adrenalina. "Nunca servi o Exército. Tudo o que sei sobre guerrilha aprendi na Ucrânia", revela. Seu plano inicial de 30 dias transformou-se em 172 dias de pesadelo.

Durante esse período, Redney enfrentou:

  • Bombardeios constantes
  • Proximidade de apenas 100 metros das forças russas
  • Perda de 17 colegas, incluindo o paranaense Wagner, o "Braddock"
  • Ferimentos graves por granada que deixaram parte do corpo paralisado por dias

"Ele saiu da trincheira sem equipamento e um drone atingiu. Estava sem colete, sem nada", descreve sobre um dos episódios mais traumáticos.

Condições Desumanas e Tentativas de Fuga

Ex-combatentes relatam situações extremas de privação e violência. "Quem tenta fugir, se for pego, é preso e torturado", afirma um brasileiro que conseguiu escapar. Outro revela ter enfrentado soldados ucranianos durante sua fuga desesperada.

Após retornar ao Brasil, um dos veteranos contou ter perdido 28 quilos e passado dias sem alimentação adequada. "Cheguei a ficar três dias só com o tempero do macarrão instantâneo", relata, ilustrando as condições subumanas enfrentadas no front.

Famílias no Brasil: Incerteza e Sofrimento

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, desde o início do conflito, 19 brasileiros morreram na Ucrânia e outros 44 permanecem desaparecidos. Familiares enfrentam meses sem notícias, vivendo em angústia constante. A esposa de um dos desaparecidos compartilha: "Pode estar morto. É uma realidade que eu tento enfrentar", referindo-se à falta de informações desde novembro.

O Itamaraty informou, em nota, que foi comunicado pelas autoridades ucranianas sobre o desaparecimento do brasileiro e que a embaixada presta assistência à família, mas a incerteza persiste.

Conflito em Andamento e Brasileiros no Front

A guerra se aproxima do quarto ano sem perspectivas claras de resolução. A Rússia retomou bombardeios após o fim da trégua de inverno, às vésperas de novas rodadas de negociações. Ainda há brasileiros na linha de frente, como Marcelo, outro baiano que hoje integra as forças especiais e de inteligência da Ucrânia.

De Zaporizhzhia, cidade que abriga a maior usina nuclear da Europa, Marcelo descreve sua realidade: "Tentando sobreviver", em meio aos constantes riscos do conflito.

A embaixada da Ucrânia no Brasil esclarece que não recruta brasileiros e que quem se alista voluntariamente tem os mesmos direitos e deveres de um cidadão ucraniano em serviço militar, mas as histórias dos ex-combatentes revelam uma realidade mais complexa.

Retorno ao Brasil e Convivência com os Traumas

De volta ao país, os ex-combatentes enfrentam o desafio de retomar suas rotinas enquanto carregam as marcas psicológicas da guerra. Um deles reflete: "Talvez com a filha por perto as coisas mudem um pouco. Ela deixa o dia mais leve", expressando a esperança de que o convívio familiar possa ajudar a amenizar as lembranças dolorosas.

As histórias desses brasileiros servem como alerta sobre os riscos de se envolver em conflitos internacionais sem plena consciência das consequências, destacando como promessas de aventura e ganhos financeiros podem levar a realidades de sofrimento e arrependimento duradouro.