Especialistas desmentem boato viral sobre perfume e tireoide
Circulam intensamente nas redes sociais publicações alarmantes recomendando evitar a aplicação de perfume diretamente na região do pescoço. Segundo essas mensagens falsas, a proximidade com a glândula tireoide e as características da pele nessa área — mais fina e vascularizada — facilitariam a absorção de substâncias químicas capazes de interferir no equilíbrio hormonal do organismo.
O conteúdo, frequentemente compartilhado em formato de imagem com texto explicativo, tem levado muitos usuários a repensar seus hábitos cotidianos de beleza e higiene pessoal. Em comentários, pessoas expressam preocupação: "Sempre tive esse receio e não passava com medo de afetar a tireoide", "Parei agora" e "Ainda bem que acabei de aprender" são algumas das reações encontradas.
Por que a alegação é completamente falsa?
A endocrinologista Caroline Serrano, diretora do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), foi categórica ao desmentir essa informação: "Não existe nenhuma evidência robusta de que aplicar perfume no pescoço cause alteração na função da tireoide".
A especialista explicou que, embora alguns perfumes possam conter substâncias classificadas como desreguladores endócrinos — como parabenos e ftalatos —, isso não significa que seu uso leve a doenças hormonais. "Não existe nenhum estudo de causa e efeito mostrando que isso provoque disfunção da tireoide", afirmou Caroline.
Outro ponto crucial destacado pela médica é que a lógica do post viral está fundamentalmente equivocada. "Independentemente de ser aplicado no pescoço, no pulso ou em outra região, a absorção é pela pele. Se essas substâncias penetrarem, elas entram na circulação e podem agir em diferentes tecidos". Portanto, evitar especificamente o pescoço não reduz qualquer risco — até porque esse risco não foi comprovado pela ciência.
O que realmente oferece riscos à tireoide?
É correto afirmar que existem substâncias com potencial de interferir no sistema endócrino presentes em diversos produtos do dia a dia, incluindo cosméticos. No entanto, a própria ciência ainda não estabeleceu claramente como isso ocorre em humanos em condições reais de exposição.
"Os desreguladores endócrinos já foram demonstrados como capazes de interferir na função hormonal, mas principalmente em estudos in vitro ou em modelos animais. Em humanos, ainda são poucos os estudos e não existe uma relação direta de causa e efeito bem estabelecida, especialmente no caso da tireoide", explicou a endocrinologista.
Caroline também destacou que a exposição a esses compostos é ampla e não se restringe aos perfumes: "A gente está exposto a desreguladores endócrinos de várias fontes: plásticos, alimentos, pesticidas, outros cosméticos. Não é algo específico do perfume".
Fatores de risco verdadeiros para alterações na tireoide
Os fatores de risco conhecidos e bem estabelecidos pela medicina para alterações na tireoide são completamente diferentes:
- Exposição à radiação
- Excesso ou deficiência de iodo na alimentação
- Doenças autoimunes
- Uso de alguns medicamentos específicos
- Exposição a contaminantes como o perclorato (geralmente relacionado à água contaminada)
A publicação viral parte de um conceito real — a existência de substâncias com potencial ação hormonal — mas tira uma conclusão completamente incorreta e sem base científica. "Não existe nenhum estudo robusto na ciência que mostre que passar perfume cause disfunção da tireoide", reforçou Caroline Serrano.
Portanto, a afirmação de que aplicar perfume no pescoço faz mal à tireoide é #FAKE e não deve ser levada a sério pelos consumidores. Especialistas recomendam sempre buscar informações de saúde em fontes confiáveis e científicas, evitando a propagação de boatos sem comprovação.



