Resistência iraniana desafia potências: como o regime sobrevive a ataques de EUA e Israel
Irã resiste a ataques de EUA e Israel com estratégia de desgaste

Resistência iraniana desafia potências mundiais com estratégia de sobrevivência

Apesar dos intensos bombardeios da maior potência militar do planeta e da eliminação sistemática de seus principais nomes, o regime iraniano demonstra notável capacidade de permanência no poder. Em um conflito assimétrico que desafia expectativas, especialistas internacionais buscam compreender os mecanismos que sustentam esta resistência.

Estratégia de desgaste: tornar a guerra custosa para o atacante

Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, explica que a estratégia iraniana baseia-se fundamentalmente em exaurir os adversários através do desgaste político e econômico. "A estratégia do Irã é exatamente essa: tornar a guerra muito cara para o atacante. É a dissuasão pelo custo da guerra", afirma o acadêmico, destacando que o país tem conseguido vantagens significativas com esta abordagem.

O especialista ressalta ainda que o Irã mantém "um estoque considerável de mísseis", elemento crucial em sua capacidade defensiva. Esta reserva estratégica, combinada com táticas de guerrilha institucional, forma a espinha dorsal da resistência iraniana.

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Preparação de décadas e estrutura descentralizada

Muitos analistas destacam que o Irã vem se preparando para um conflito desta magnitude há quase quarenta anos, desde o primeiro grande teste militar após a Revolução Islâmica: a Guerra Irã-Iraque, que se estendeu de 1980 a 1988. A experiência traumática daquele conflito levou o regime a pensar no longo prazo.

Contrariando a imagem de centralização associada à figura do líder supremo, o regime desenvolveu um sistema profundamente descentralizado de comando. "Ainda que a figura de um líder supremo sugira o oposto, o regime descentralizou a cadeia de comando; criou um sistema com muitos substitutos", observam os especialistas.

Esta estrutura foi testada dramaticamente nos primeiros dias do atual conflito, quando Estados Unidos e Israel eliminaram a cúpula do regime. Além do líder supremo Ali Khamenei, foram mortos:

  • O ministro da Defesa
  • O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas
  • O comandante da Guarda Revolucionária

Em poucos dias, quase todas as posições já haviam sido preenchidas por substitutos, incluindo Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo, que assumiu a liderança do país. O mesmo padrão se repetiu com o chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, e o ministro da Inteligência, ambos eliminados e rapidamente substituídos.

Reserva humana e capacidade de regeneração

Hooshang Amirahmadi, acadêmico iraniano que tentou três vezes se candidatar à Presidência do Irã e hoje vive em Nova York, oferece uma perspectiva interna sobre esta capacidade de regeneração. "Eu não diria que o Irã está vencendo a guerra, mas está conseguindo contê-la bem, usando suas armas", avalia.

Amirahmadi destaca que "no fim das contas, o Irã não tem bomba nuclear, mas tem algo mais eficaz: o Estreito de Ormuz", referindo-se ao ponto estratégico crucial para o transporte de petróleo global.

Sobre a impressionante capacidade de substituição de lideranças, o acadêmico explica: "Qualquer general que seja morto, logo aparece outro no lugar, e depois mais outro. Lembre-se: há cerca de 300 mil nas forças militares e na Guarda Revolucionária, e quase 500 mil no Exército. Então, embora a estrutura vertical tenha sido desmantelada, a estrutura horizontal foi ampliada e fortalecida".

Armamento disperso e pressão econômica

Vitelio Brustolin aponta outro fator crucial na resistência iraniana: a dispersão geográfica de seu arsenal. "É bastante improvável que todos os mísseis do Irã sejam destruídos. Eles estão espalhados pelo território do Irã, muitos deles em abrigos subterrâneos sob montanhas", explica o professor.

Paralelamente, o especialista observa que muitos americanos estão "perdendo economias com a queda dos mercados", criando pressão interna sobre a administração norte-americana para buscar uma solução negociada.

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Limites do poder aéreo e perspectivas futuras

Os especialistas consideram improvável que Estados Unidos e Israel atinjam um de seus principais objetivos estratégicos: a derrubada do regime dos aiatolás. Brustolin argumenta que "historicamente, nunca houve uma troca de regime sem tropas no terreno. Então, só bombardeios aéreos não trocam regimes".

Amirahmadi defende que a única solução viável passa por uma retirada militar seguida de negociações abrangentes. "A única solução é Estados Unidos e Israel se retirarem da guerra e, então, oferecerem ao Irã uma negociação abrangente", afirma o acadêmico iraniano.

Enquanto o conflito continua, o regime iraniano demonstra uma notável capacidade de adaptação e sobrevivência, desafiando as expectativas de observadores internacionais e redefinindo os parâmetros do que é possível em guerras assimétricas no século XXI.