Visita diplomática em meio ao conflito
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, realizou uma visita oficial a Beirute, capital do Líbano, nesta quinta-feira, 13 de março de 2026, onde se reuniu com o presidente Joseph Aoun e fez um apelo urgente pelo cessar-fogo entre Israel e a milícia Hezbollah. Em coletiva de imprensa após os encontros diplomáticos, Guterres foi enfático ao afirmar que o Líbano "nunca quis" entrar nesta guerra e que sua população foi arrastada para um conflito que não desejava.
Críticas diretas ao Hezbollah
Durante sua fala, o líder da ONU fez uma aparente crítica ao grupo armado xiita ao declarar que "este não é mais o tempo dos grupos armados. Este é o tempo dos Estados fortes". A declaração foi interpretada como uma referência direta ao Hezbollah, cujo poderio militar é considerado superior ao do próprio Exército libanês. Guterres também expressou seu desejo de que sua próxima visita fosse a "um Líbano em paz", onde a força estaria sob controle estatal e a integridade territorial fosse plenamente respeitada.
Contexto do conflito atual
As hostilidades entre Hezbollah e Israel tiveram início em 2 de março, quando a milícia libanesa lançou foguetes contra território israelense em retaliação pela morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei. Desde então, Israel tem promovido ofensivas aéreas e terrestres no leste e sul do Líbano, alegando atingir bases do grupo armado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os números são alarmantes:
- 634 mortos em território libanês desde o início dos combates
- 1.586 pessoas feridas nos confrontos
- Mais de 800 mil deslocados devido aos combates no sul do país
Impacto econômico devastador
A guerra está causando estragos significativos na já frágil economia libanesa. Dados da agência de notícias AFP revelam quedas dramáticas em diversos setores:
- Produção comercial caiu 50% desde o final de fevereiro
- Produção industrial registrou baixa de 50%
- Produção agrícola teve retração de 40%
- Ocupação hoteleira caiu para 10-15%
- Atividade de restaurantes sofreu retração de 90%
Mohammad Choucair, presidente da Câmara de Comércio de Beirute e do Monte Líbano, alertou que uma guerra prolongada pode levar ao fechamento de centenas de empresas, demissões em massa e agravamento da crise econômica que já assola o país.
Ressentimento crescente da população
Muitos libaneses têm expressado abertamente seu descontentamento com o Hezbollah por arrastar o país para este conflito. A advogada xiita Lina Hamdan declarou à AFP que "ninguém queria esta guerra", destacando que sua comunidade é sempre a primeira vítima. Uma mulher que preferiu manter o anonimato acusou o grupo de impor "mais uma guerra" aos libaneses, enquanto Randa Harb, idosa que gerencia uma banca de frutas em Beirute, afirmou que o Hezbollah "deve entregar suas armas ao estado".
Histórico do Hezbollah
Fundado em 1982, o Hezbollah foi a única milícia que não se desarmou após o encerramento da Guerra Civil Libanesa na década de 1990, apesar das tentativas do governo de Beirute. Patrocinado pelo Irã, o grupo político-militar construiu um arsenal considerável ao longo dos anos, travando inúmeras guerras contra Israel com custos devastadores para o Líbano. Um comerciante de 68 anos entrevistado pela AFP resumiu o sentimento de parte da população ao afirmar que "o Hezbollah toma decisões sem se preocupar com o país nem com sua própria base de apoio".
Posição do governo libanês
O presidente Joseph Aoun agradeceu o apoio das Nações Unidas durante a visita de Guterres e reiterou seu pedido para que Israel interrompa os ataques. No início da semana, o mandatário já havia tentado estabelecer negociações diretas com Tel Aviv para um acordo de cessar-fogo, mas não obteve resposta oficial do governo liderado pelo premiê Benjamin Netanyahu. Pelo contrário, Israel intensificou a ofensiva, com autoridades israelenses falando em "tomar território" libanês para sufocar o Hezbollah.
A visita de António Guterres ao Líbano ocorre em um momento crítico, com o secretário-geral da ONU tentando mediar uma solução diplomática para um conflito que já causou centenas de mortes, milhares de feridos e deslocados, além de impactos econômicos devastadores para um país que enfrenta múltiplas crises há anos.



