Disputa de laudos ameaça maior mina de ouro a céu aberto do Brasil no Xingu
Laudos divergentes ameaçam mina de ouro no Xingu

O Projeto Volta Grande (PVG), da mineradora canadense Belo Sun, no Pará, que pretende ser a maior mina de ouro a céu aberto da história do Brasil, enfrenta uma disputa técnica sobre sua segurança. De um lado, laudos encomendados pela empresa, assinados pela extinta consultoria VogBR, garantem que o empreendimento é seguro. Do outro, uma análise independente do geofísico Dr. Steven Emerman aponta riscos elevados de desastre.

O dilema dos laudos

Assim como um paciente que recebe dois diagnósticos opostos para uma cirurgia de alto risco, a Volta Grande do Xingu, região que abrange Altamira e Senador José Porfírio, vive um impasse. Enquanto o laudo da VogBR, mesma consultora que atestou a segurança da barragem de Mariana (MG), considera o projeto seguro, o estudo de Emerman, encomendado pela ONG Amazon Watch, alerta para falhas graves.

O geofísico aponta que a probabilidade anual de falha da barragem de rejeitos é de 0,5%, cinco vezes superior à média global de 0,1%. "Considerando os 12 anos de operação previstos, a chance de um desastre ocorrer é de quase 6%", afirma Emerman. Ele também critica o tempo de reação em caso de rompimento: enquanto a Belo Sun alega que a lama levaria 97 minutos para atingir o Rio Xingu, o estudo independente calcula apenas 7 minutos, com base em tragédias como Brumadinho.

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Riscos químicos e ambientais

Diferente de Mariana, onde a lama era de minério de ferro, o resíduo do projeto Belo Sun conteria cianeto de sódio, arsênio e mercúrio. Pesquisadores da USP e da UFAM alertam que, em um rio já debilitado pela seca artificial causada por Belo Monte, qualquer vazamento se tornaria um veneno persistente e irreversível.

A barragem de rejeitos, projetada para armazenar 35,43 milhões de metros cúbicos de lama tóxica, está localizada a menos de 16 km da barragem principal de Belo Monte e a 11 km da Terra Indígena Paquiçamba. A Norte Energia, operadora da hidrelétrica, já manifestou preocupação com possíveis impactos das explosões da mina na estabilidade das estruturas da usina.

Julgamento no TRF-1

Nesta quarta-feira (20), o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) julga uma ação que pode transferir o licenciamento ambiental da Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Semas) para o Ibama. O Ministério Público Federal (MPF) alega que o licenciamento estadual é insuficiente e fragmenta a análise dos impactos, que deveriam ser vistos de forma holística junto com Belo Monte.

A Belo Sun, em nota, afirma que não prevê captação nem desvio de água do Rio Xingu e que está revisando seus estudos com a contratação da G Mining Services. A empresa estima concluir as análises no terceiro trimestre de 2026 e o Estudo de Viabilidade Definitivo no início de 2027.

Oposição de comunidades

Movimentos sociais, pesquisadores e comunidades locais se opõem ao projeto. "Não queremos que o que aconteceu em Mariana aconteça aqui na Amazônia, e numa escala maior ainda de catástrofe", afirma Ana Laide, do Movimento Xingu Vivo Para Sempre. "A gente vive com muito medo de duas barragens: a de Belo Monte e a de Belo Sun", diz Eliete Juruna, indígena da TI Paquiçamba.

O MPF também denuncia que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da Belo Sun está desatualizado, com dados coletados há 14 anos, antes da instalação de Belo Monte. O órgão questiona se a localização atual da barragem corresponde ao que foi licenciado, e alerta para riscos não analisados, como o rompimento dos diques de sela.

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