Conflito interno no Irã ameaça acordo de paz e gera incerteza nas negociações
A instabilidade política no Irã está criando um cenário de alta tensão que pode comprometer seriamente as negociações para o fim da guerra em curso. Com a ausência de uma liderança definida, especialmente devido ao estado grave de saúde do aiatolá Ali Khamenei, diferentes facções dentro do governo iraniano disputam poder e influência sobre o destino das tratativas diplomáticas.
Divergências entre facções políticas e militares
Uma fonte do governo americano revelou ao site Axios que há incerteza sobre quem realmente está no comando no Irã atualmente. O risco é que os elementos mais radicais, particularmente os ligados aos Guardas da Revolução Islâmica, possam impedir um acordo, levando a uma deterioração ainda maior da situação. Um exemplo recente ilustra essa fragilidade: o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, anunciou pela rede social X que o Estreito de Ormuz seria reaberto, apenas para ser desmentido poucas horas depois, piorando o quadro geral.
Especialistas interpretam esse episódio como resultado de um confronto direto entre correntes opostas dentro do regime. De um lado, figuras como o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e outros integrantes da ala política demonstram apoio ao acordo, apesar da retórica belicosa obrigatória. O presidente Masoud Pezeshkian também já declarou publicamente que "a guerra não beneficia ninguém". Do outro lado, o comandante dos Guardas da Revolução, general Ahmad Vahidi, lidera a oposição, contando com o poder militar que detém.
Poder decisório nas mãos dos radicais
Uma fonte bem informada relatou ao Axios que a equipe de negociação americana acreditava estar dialogando com as pessoas certas, mas os Guardas da Revolução intervieram dizendo "nada disso, vocês não falam por nós". A situação chegou a um ponto tão crítico que Ghalibaf, conhecido por sua linha dura, foi acusado de traição após defender publicamente as negociações. Ele afirmou estar disposto a arriscar "minha vida e minha reputação", o que pode não ser apenas uma figura de linguagem considerando o contexto.
Ironia do destino, muito dessa disputa interna se deve ao sucesso de Israel em eliminar importantes lideranças iranianas, começando pelo próprio líder supremo. Com seu filho e sucessor gravemente ferido, falta uma figura com autoridade final para tomar decisões definitivas e fazer com que sejam acatadas por todas as facções.
Pressões políticas e militares em jogo
Do lado americano, existe uma pressão considerável sobre o presidente Donald Trump para encerrar uma guerra que se tornou impopular, embora ele tenha afirmado, em seu estilo característico, não estar "minimamente pressionado". Militarmente, os Estados Unidos mantêm fôlego para continuar exercendo pressão sobre o Irã pelo tempo que for necessário. No entanto, a questão é essencialmente política: Trump precisa garantir um bom acordo e demonstrar que conseguiu alcançá-lo.
A maioria da mídia americana transmite a impressão de que o Irã está em vantagem, uma avaliação considerada absurda por muitos, mas coerente com a tendência de apresentar o presidente sob uma perspectiva negativa. Assim, temos uma negociação repleta de riscos para todos os envolvidos, sem contar a população iraniana que saiu às ruas em protesto contra o regime e agora enfrenta forças muito superiores, incluindo a possibilidade de um entendimento entre o governo americano e seus opressores.



