Oposição articula para barrar tramitação do fim da escala 6x1 na CCJ
Os presidentes do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, e do União Brasil, Antonio Rueda, declararam publicamente que a oposição trabalhará para travar a tramitação da proposta que prevê o fim da escala 6x1 na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. O objetivo explícito é evitar que o texto seja levado ao plenário, onde as chances de ser derrubado seriam significativamente menores, segundo avaliação dos próprios líderes partidários.
"Difícil votar contra" no plenário, afirma Valdemar Costa Neto
Em um jantar com empresários na região da Faria Lima, em São Paulo, promovido pelo grupo Esfera na noite de segunda-feira (23), Valdemar Costa Neto foi categórico: "É difícil um cidadão que é candidato a deputado federal, que é candidato a senador, votar contra [o fim da escala] 6x1 se colocarem para votar. Nós vamos trabalhar para não deixar votar". A declaração foi recebida com aplausos pelos presentes. O presidente do PL reforçou a estratégia: "Vamos trabalhar para isso. Vamos mudar a vida para isso. E o que nós pretendemos fazer é trabalhar com o presidente da Câmara e segurar isso aí na CCJ".
Detalhes das propostas em tramitação
O texto que está sob análise dos deputados é uma Proposta de Emenda à Constituição apresentada inicialmente pela deputada Erika Hilton do PSOL de São Paulo, à qual foi apensada a proposta do deputado Reginaldo Lopes do PT de Minas Gerais. Ambas as PECs buscam alterar o artigo 7º da Constituição Federal, estabelecendo uma jornada máxima de trabalho de 36 horas semanais, que poderiam ser distribuídas conforme conveniência do empregador, com limite diário de oito horas.
Enquanto a proposta de Reginaldo Lopes prevê a possibilidade de jornada 5x2 em setores específicos como o bancário, com sete horas diárias, a PEC de Erika Hilton avança ainda mais, estabelecendo quatro dias de trabalho semanais. Essa diferença tem gerado debates intensos sobre o impacto econômico das medidas.
Críticas ao "caráter eleitoral" da proposta
Antonio Rueda, presidente do União Brasil, também se manifestou contra a proposta durante o mesmo evento. "Eu tenho uma posição pessoal. Quando você olha para qualquer país desenvolvido, essa proposta é muito danosa para a economia e para o setor produtivo. E ela é posta de maneira eleitoral. Então, é muito claro que isso aí tem por finalidade colher dividendo eleitoral", afirmou Rueda.
O dirigente partidário destacou ainda a dificuldade política que parlamentares enfrentariam ao votar contra a proposta no plenário, especialmente em ano eleitoral. Citando o deputado federal Maurício Carvalho do União Brasil de Rondônia, presente no jantar, Rueda argumentou: "Ele sabe a dificuldade que vai ter se isso for para votação e ele votar contra. Ele vai perder dividendo eleitoral. Vai perder voto. É uma posição muito cruel para quem está disputando uma reeleição".
Cálculo político e força da oposição
Rueda fez um cálculo político revelador sobre as forças em jogo: "Eu tenho dentro do meu partido 30 votos. Talvez o Valdemar tenha 40. Mas a esquerda já parte por 140, 150 votos. É um assunto muito penoso para o setor produtivo". Essa avaliação numérica reforça a estratégia de conter a proposta ainda na CCJ, onde o processo pode ser mais controlado pela oposição.
O presidente do União Brasil acrescentou: "Eu acho que a gente tem que ter inteligência, acho que a gente tem que ter perspicácia para, dentro da boa política, dentro do diálogo, a gente tentar segurar essa proposta. Porque, se essa proposta for a plenário, ela é avassaladora".
Contexto político mais amplo
O jantar entre os dirigentes partidários teve como objetivo principal apresentar aos empresários a visão que ambos possuem sobre o cenário eleitoral brasileiro. Valdemar Costa Neto e Antonio Rueda são declarados apoiadores da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
Durante o evento, Valdemar revelou ter orientado Flávio Bolsonaro a buscar nomes para compor sua equipe de forma similar ao papel desempenhado por Paulo Guedes na campanha de Jair Bolsonaro em 2018. "Ele tem que vir com propostas econômicas. Tem que ir atrás do pessoal que ajudou ele, o Paulo Guedes, para poder mostrar e fazer propostas na economia que tenham resultados futuros", afirmou o presidente do Partido Liberal.
A articulação política em torno da proposta do fim da escala 6x1 revela não apenas um debate sobre condições de trabalho, mas também uma complexa disputa eleitoral que antecede as próximas eleições, com partidos calculando cuidadosamente seus movimentos diante de uma proposta que possui apelo popular significativo.