A Delicada Escolha do Vice na Política Brasileira: Fatores e Interesses em Jogo
Escolha do Vice na Política Brasileira: Fatores e Interesses

A Delicada Hora da Escolha do Vice na Política Brasileira

Chegado o momento crucial em que se definem as peças da disputa pela Presidência da República, o candidato principal, a aliança partidária que o apoia e os grupos que exercem influência sobre ele entram na fase de cogitação em torno do companheiro de chapa. A sempre delicada definição do nome do vice-presidente representa um dos pontos mais sensíveis da campanha eleitoral.

Fatores e Interesses que Pesam na Decisão

São muitos os fatores e interesses que pesam nessa hora decisiva, e, não raro, o candidato principal vê-se obrigado, por força das contingências político-partidárias, a engolir quem não desejou inicialmente. Seja por desconfiança mútua ou por antipatia pessoal, seja por desencontros passados, a imposição de um nome fica registrada como primeira frustração no jogo político que está apenas começando.

Vale, no momento atual, para muitos estrategistas, a receita testada em pleitos anteriores. Isto é, considera-se necessário que a escolha recaia sobre alguém do Nordeste brasileiro, região onde as lideranças mostram-se historicamente compactas e o eleitorado prima pela obediência às orientações políticas estabelecidas.

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O Poder Regional e as Tradições Políticas

Uma prova incontestável do poder regional nordestino é o fato de que a Câmara dos Deputados e o Senado Federal são comandados, quase invariavelmente ao longo da história, por políticos originários do Norte ou Nordeste do país. Nomes como Motta e Alcolumbre representam as peças da vez nesse xadrez político regional.

Outra corrente de pensamento, nunca ausente nessas horas de definição, sustenta que o vice-presidente deva ser um mineiro, de quem se espera a força política de representar o segundo maior colégio eleitoral do país. Acresce a essa visão a crença arraigada de que a gente política de Minas Gerais é particularmente jeitosa na superação de momentos críticos e, se não ajuda decisivamente, pelo menos não atrapalha o andamento do governo.

Lições Históricas das Relações Presidente-Vice

Certamente dessa visão otimista discordariam experiências históricas como as de João Figueiredo e Fernando Collor, que importaram da montanha mineira seus respectivos vices Aureliano Chaves e Itamar Franco. Ambos os presidentes apenas toleravam seus companheiros de chapa, com algum custo político e pessoal considerável.

Nesse particular, contrastaram fortemente com Fernando Henrique Cardoso, que foi buscar em Pernambuco o discretíssimo Marco Maciel, um vice-presidente incapaz de causar dificuldades ao titular, conforme observação perspicaz de Wilson Figueiredo em suas crônicas. Como lembrava o jornalista, maldade maior na política é aquele vice que já entra no cargo esperando que o titular morra, abrindo-se assim a cobiçada vaga presidencial.

Problemas na Formação das Chapas Presidenciais

É pena que a definição do nome do vice-presidente se dê frequentemente ao sabor de concessões políticas, de interesses regionais claramente localizados, ou compromissos partidários nem sempre ajustados às conveniências republicanas mais amplas. Premiado pelo destino, esperemos que o próximo vice-presidente, elegendo-se em outubro, esteja verdadeiramente bem preparado para eventualidades.

Se não pode adivinhar o amanhã, tem obrigação de deitar-se hoje pronto para assumir a Presidência a qualquer momento, o que torna indispensável estar amplamente familiarizado com o exercício do poder e ser dono de inquestionável competência administrativa. Os partidos políticos têm pensado seriamente nisso ao formar suas chapas?

Expectativas para as Próximas Eleições

Outro antigo desejo da sociedade brasileira, muitas vezes seguido de frustração histórica, é que na formação das chapas presidenciais uma boa escolha técnica não seja abafada pelas imposições ideológicas rígidas ou pelos calores das radicalizações momentâneas. É mais uma expectativa legítima que devemos levar para a eleição presidencial que já se aproxima no horizonte político.

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O Papel Histórico dos Vices na República Brasileira

Digamos que figura entre os deveres do eleitor brasileiro consciente levar em conta uma realidade política quase uma vocação muito nossa: metade da História da República teve os vice-presidentes como principais atores em momentos decisivos. Chegaram à Presidência da República, seja naturalmente ou por força de circunstâncias extraordinárias:

  • Floriano Peixoto
  • Afonso Pena
  • Nilo Peçanha
  • Venceslau Braz
  • Delfim Moreira (até 1930)

E, no período posterior:

  1. Nereu Ramos
  2. Café Filho
  3. João Goulart
  4. José Sarney
  5. Itamar Franco
  6. Michel Temer

Não é pouco. Mais impressionante ainda se lembrarmos que o Brasil, tão jejuno de troféus políticos neste mundo globalizado, ostenta um recorde singular na galeria dos vice-presidentes que por mais tempo ficaram na Presidência de seus países. José Sarney, que ficou com os cinco anos completos que seriam originalmente de Tancredo Neves, superou claramente:

  • Andrew Johnson, herdeiro de 3 anos e 11 meses que seriam de Abraham Lincoln
  • Theodore Roosevelt, com 3 anos e 8 meses que seriam de William McKinley
  • Harry Truman, que abiscoitou 3 anos e 9 meses que seriam de Franklin Roosevelt

Essa trajetória histórica demonstra que a escolha do vice-presidente não é mero detalhe protocolar, mas decisão estratégica que pode alterar profundamente os rumos da nação brasileira.