Padre gaúcho Roberto Landell de Moura: o pioneiro esquecido do rádio mundial
No Dia Internacional do Rádio, a história de um padre gaúcho, Roberto Landell de Moura, ressurge como um dos pioneiros da comunicação sem fio, cuja trajetória se assemelha à de outros inventores brasileiros como Santos Dumont. Apesar de seus feitos notáveis, ele disputa o reconhecimento histórico com figuras que tiveram maior sucesso comercial e global, enfrentando resistência, falta de investimentos e até acusações de que suas invenções eram "diabólicas".
Vida e formação de um inventor sacerdotal
Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, em 21 de janeiro de 1861. Após estudar em um colégio jesuíta, ele decidiu seguir a vida sacerdotal e foi para Roma, onde se formou em teologia e também estudou física e química na Universidade Gregoriana. Essa formação única combinou fé e ciência, preparando-o para inovações que mudariam o mundo.
Experimentos pioneiros e resistência no Brasil
De volta ao Brasil na década de 1890, enquanto atuava em paróquias em São Paulo, Landell de Moura formulou teorias sobre a transmissão de som sem fio. No final daquele século, ele realizou demonstrações públicas na capital paulista, transmitindo a voz humana por uma distância de cerca de 8 quilômetros, na presença do cônsul britânico. No entanto, suas invenções não atraíram o interesse de investidores, e a notícia sobre os experimentos gerou desconfiança entre seus paroquianos, que consideraram os aparelhos uma "obra do diabo". Fanáticos religiosos chegaram a invadir seu laboratório e destruir equipamentos, mas o padre persistiu, dizendo: "Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da ciência e do progresso humano".
Patentes e busca por reconhecimento internacional
Mesmo com o revés, o padre reconstruiu suas máquinas e, em 1900, obteve a patente brasileira nº 3.279 para um dispositivo que transmitia som pelo espaço, terra ou água. Sem apoio no Brasil, mudou-se para os Estados Unidos, onde, em 1904, conseguiu mais três patentes para um transmissor de ondas, um "telefone sem fio" e um telégrafo sem fio. Apesar do pioneirismo, Landell de Moura não obteve o reconhecimento e o apoio financeiro necessários para comercializar suas invenções, retornando ao trabalho paroquial e morrendo em Porto Alegre em 30 de junho de 1928.
Comparação com Guglielmo Marconi e o contexto histórico
Enquanto Landell enfrentava dificuldades, o inventor italiano Guglielmo Marconi, que vinha de uma família rica e com boas conexões na Grã-Bretanha, obteve sucesso ao patentear e comercializar a telegrafia sem fio em larga escala, recebendo o Prêmio Nobel de Física em 1909. Segundo Luiz Artur Ferraretto, pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ambos foram grandes pesquisadores, mas com oportunidades distintas. "Marconi, com todas as possibilidades de ser de uma família rica, conseguiu que ele pudesse demonstrar os seus equipamentos para os correios do principal império da época, que é a Grã-Bretanha", explica. "Já o Padre Landell, ele vai desenvolver tecnologia para transmissão de mensagens à distância com voz num país pobre, sem apoio de ninguém".
O conceito de rádio e uma invenção coletiva
Ferraretto destaca que o conceito de "rádio" na época era diferente. "Rádio na época era sinônimo de ondas eletromagnéticas. Não era o meio de comunicação rádio", pontua o professor. A ideia do rádio como um meio de comunicação de massa, com aparelhos nas casas das pessoas, foi sugerida por David Sarnoff, um funcionário da empresa de Marconi. Assim, para o pesquisador, a tecnologia do rádio é, na verdade, uma construção coletiva. "Do ponto de vista tecnológico, o rádio é uma invenção de muitas pessoas", conclui Ferraretto, enfatizando que Landell de Moura desempenhou um papel crucial, mas muitas vezes esquecido, nessa história.