Mesmo quem desconfia da inteligência artificial precisa reconhecer que a tecnologia está transformando áreas essenciais da vida humana, especialmente a educação. Nunca foi tão necessário aprender a reaprender com rapidez e intensidade. Nesse contexto, o conceito de aprendizado incidental, apresentado no livro homônimo de Conrado Schlochauer, doutor em Aprendizagem de Adultos pela USP, ganha relevância. O autor, que também escreveu o best-seller Lifelong Learners: o poder do aprendizado contínuo (2021), conversou com a coluna para explicar como incorporar essa prática no cotidiano.
O que é aprendizado incidental
Schlochauer define o aprendizado incidental como aquele que surge quando menos se espera, resultado de experiências vividas por outros motivos — uma conversa com um cliente, um projeto fora da área de atuação, entre outros. Mas como inserir algo inesperado na rotina? Uma das principais barreiras é o hábito de agir no piloto automático, sempre pensando na próxima tarefa em vez de estar presente no momento. Reuniões e interações que poderiam ser transformadoras passam despercebidas porque a atenção está em outro lugar. O aprendizado incidental está sempre disponível, mas muitas vezes não é notado. A proposta do autor é tornar consciente esse processo e influenciá-lo a favor de quem aprende. “Esse aprendizado não tem que gerar mais angústia, ele tem que ajudar a resolver”, afirma.
Por que você precisa de aprendizado incidental
O modelo 70-20-10, clássico no treinamento corporativo, indica que apenas 10% do aprendizado profissional vem de cursos formais; os outros 90% decorrem de experiências de trabalho e interações com colegas. Ou seja, a maior parte do desenvolvimento já acontece fora da sala de aula. No entanto, poucas pessoas cultivam isso de forma consciente. Em um cenário onde a inteligência artificial redefine funções inteiras em meses, esperar pelo próximo treinamento formal é arriscado. Quem aprende apenas quando alguém organiza um curso pode ficar para trás.
Aprender por acaso, mas com intenção
Apesar do nome “incidental”, a ideia depende de uma escolha intencional. É preciso ficar mais atento e evitar que os momentos da rotina sejam dominados por algoritmos. “Se você ficar na sua casa, quietinho, no Instagram, é mais difícil aprender algo novo”, comenta Schlochauer. “Se você vai na SP-Arte, se conversa com pessoas, se vive elementos diferentes, é outra história.” Isso também vale para a tecnologia. O autor cita a própria mãe, de 86 anos, usuária frequente do ChatGPT, como exemplo de que a experimentação com o novo faz parte desse acaso intencional. Curiosidade não é traço de personalidade, mas postura que se escolhe.
Como incluir aprendizado incidental na sua vida
Schlochauer organiza o processo em três movimentos cíclicos: despertar, explorar e transformar.
- Despertar: movimento interno de assumir a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento, reconhecendo que há aprendizado ao redor que foi ignorado. É uma mudança de postura.
- Explorar: a partir do despertar, busca-se ampliar a abertura à experiência por meio de arte, viagens, conversas com pessoas de áreas diferentes. Isso está diretamente ligado à capacidade de lidar com incertezas, característica valorizada pelo mercado, mas raramente cultivada.
- Transformar: o mais exigente, pois requer disciplina. De nada adianta despertar e explorar sem processar o que foi vivido. Schlochauer recomenda manter um diário de aprendizagem, registrando ao menos duas vezes por semana o que se aprendeu. “A mistura de momentos muito organizados e uma curiosidade, uma atenção ao que acontece ao longo da sua vida, é isso que complementa o aprendizado tão necessário hoje”, conclui.



