Comércios tradicionais do Centro de Campinas enfrentam crise e buscam soluções
Crise no Centro de Campinas: comércios lutam para sobreviver

Comerciantes do Centro de Campinas enfrentam crise e buscam soluções para se manter

O Centro de Campinas (SP) enfrenta uma situação crítica, com comerciantes e trabalhadores que atuam há décadas na região testemunhando transformações profundas. A concorrência com as vendas online, a insegurança e o fechamento de lojas vizinhas são desafios constantes. O g1 percorreu as ruas do Centro e ouviu relatos de quem resiste, adotando estratégias como vendas pela internet, redução de custos, estoques enxutos e investimentos em segurança e iluminação. A Prefeitura de Campinas afirma manter ações permanentes para reforçar a segurança, com investimentos em iluminação, limpeza, mutirões de zeladoria e obras de requalificação urbana, além da revitalização de prédios históricos e incentivos fiscais.

'Decadência do Centro'

Denis Iazdi, proprietário da loja de componentes eletrônicos Cinestec há 41 anos na Rua General Osório, afirma que nunca enfrentou uma fase tão difícil. O movimento caiu para cerca de 20% do que era há dez anos, e ele classifica o cenário como uma 'decadência do Centro'. 'Hoje a situação é a mais crítica que já passamos, é a pior de todas', lamenta. Segundo ele, a maioria das pessoas migrou para a periferia, e centros comerciais mais fortes surgiram. 'Eu não posso sair, sou dono do prédio; se sair, não consigo alugar. Só nesta rua há 40 imóveis vazios', relata.

Iazdi aponta que a decadência se intensificou a partir de 2018, com valores de imóveis acima da realidade, dificultando a manutenção dos negócios. Durante a pandemia, a loja teve bom desempenho vendendo peças para equipamentos hospitalares, mas o movimento despencou depois. 'A pandemia praticamente me salvou. Apesar de portas fechadas, a venda externa era muito forte', afirma. Ele destaca que o avanço das compras pela internet agravou a situação, especialmente no varejo técnico. 'Se você cai na internet, compete com o planeta inteiro. Os grandes portais dominaram', diz. Hoje, as vendas online representam cerca de 10% do faturamento, contra 1% antes. Além da queda no movimento, a loja foi alvo de três invasões entre 2023 e 2024, após 20 anos sem ocorrências, levando à instalação de grades e sistemas de segurança.

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Esvaziamento gradual

Na Rua Conceição, a Banca do Rock, de Renato de Souza, funciona há 27 anos. Ele afirma que o esvaziamento do Centro é gradual. 'O Centro está doente, uma doença que vem apresentando sintomas há uns 20 anos, e ninguém cuidou', diz. Ruas antes movimentadas e iluminadas hoje concentram imóveis fechados e pouca circulação. 'É triste andar à noite por aqui. Antes havia bares abertos, vida noturna legal. Agora só vejo sujeira, ratos atravessando a rua', conta. Fatores como aluguel alto, dificuldade para estacionar, violência e degradação urbana contribuíram para a saída dos comércios. 'Hoje os bairros oferecem estrutura que o centro dá e até melhor', avalia.

Para continuar, Renato adota estratégias individuais: 'Cada comerciante está meio cada um por si. Cimentei a calçada, mantenho tudo iluminado, limpo. É cada um fazendo um pouco'. Ele acredita que é possível reverter o quadro com ações conjuntas entre comerciantes, proprietários e poder público para incentivar a ocupação das lojas vazias.

Sensação de insegurança

No Largo do Rosário, o garçom Vicente de Jesus Santos trabalha há quase 27 anos em um restaurante. Ele percebe aumento da insegurança, principalmente à noite. 'O centrão está meio abandonado. Muitas lojas fechando, praticamente fechou tudo. Depois que o Palácio da Justiça saiu, foi para a Cidade Judiciária, está acabando com tudo', afirma. O restaurante continua movimentado, mas clientes agora preferem aguardar o transporte por aplicativo dentro do estabelecimento. Após a pandemia, o local passou a contar com segurança, e funcionários redobraram cuidados na saída do trabalho. Vicente aponta que imóveis fechados e pessoas em situação de rua contribuem para a sensação de abandono.

Apesar do cenário, os comerciantes veem potencial no Centro. Para Denis Iazdi, qualquer mudança efetiva depende da retomada do fluxo de pessoas. 'Não é dinheiro que o comerciante precisa. É cliente. Se não vende, não compra', conclui.

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O que diz a prefeitura

A Prefeitura de Campinas informou que a Guarda Municipal realiza rondas 24 horas no Centro com 100 GMs. No primeiro trimestre deste ano, foram atendidas 2.452 ocorrências e efetuadas 53 prisões. Dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública indicam queda nos crimes contra o patrimônio. A região é monitorada por câmeras do Centro Integrado de Comando e Controle, com atuação conjunta das polícias. A iluminação foi modernizada em mais de 1,5 mil pontos com lâmpadas de LED. A limpeza ocorre diariamente em três turnos, com 44 varredores em 16 setores e 6 praças. Ruas e espaços públicos são lavados seis vezes por semana. A Prefeitura promove mutirões de zeladoria, como roçagem, lavagem, tapa-buracos e reparos no calçadão da 13 de Maio.

O Programa Nosso Centro revitalizou e reocupou prédios históricos como o Palácio da Cidade, Centro de Convivência Cultural, Prédio do Relógio e antigo Hotel Opala. A avenida Glicério e ruas Campos Salles e José Paulino foram requalificadas. A Delfino Cintra teve um trecho modernizado, e a próxima via é a Thomaz Alves. O Terminal Mercado foi reformado, e a Praça Bento Quirino recebeu novos mobiliários. O Largo do Rosário e a Praça Guilherme de Almeida ganharam bancos, lixeiras e floreiras. Iniciou-se a construção do piscinão da Praça da Ópera para prevenção de alagamentos. Há programas de incentivos fiscais e urbanísticos, como o Retrofit, que isenta ou reduz IPTU e ITBI para reforma de prédios antigos (dez já contemplados), e o Procentro, que reduz a alíquota do ISSQN para manter empresas na área central. Uma das empresas que se instalará na Costa Aguiar é a Armarinhos Fernando. Nos últimos anos, não houve aumento do IPTU, apenas correção da UFIC pela inflação. São realizadas abordagens diárias a pessoas em situação de rua; em 2026, foram 1.554 abordagens e 228 atendimentos no Centro. Em 2025, 285 pessoas retornaram às cidades de origem pelo Programa Recâmbio.