Professor preso pela PF por fraudes em concursos já foi detido em 2017 enquanto fazia prova do MPRN
Um dos investigados e presos na operação da Polícia Federal que resultou no afastamento do Delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas também foi alvo da "Operação Gabarito" em 2017, que investigou fraudes em quase cem concursos públicos. Segundo documentos acessados, Dárcio de Carvalho Lopes, alvo de mandado de prisão preventiva, teria ligação com a chamada "máfia dos concursos", centralizada em Patos, no Sertão da Paraíba.
Detenção anterior e confissão
Em 2017, o professor de português e funcionário da Caixa Econômica Federal Dárcio de Carvalho Lopes foi preso enquanto realizava a prova do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte (MPRN). Ele admitiu que a organização criminosa lhe ofereceu R$ 300 por questão respondida e que aceitou a proposta porque estava "passando por dificuldades financeiras".
Continuação das atividades criminosas
Já em 2026, novas investigações da Polícia Federal no âmbito da operação Concorrência Simulada apontaram que Dárcio atuou ativamente na fraude do concurso da Polícia Federal. De acordo com a PF, mesmo após ter sido preso em 2017, Dárcio continuou se dedicando a fraudar concursos públicos. Identificado como “Dadá Meu Frango”, ele teria participação em trocas de mensagens e envio de respostas durante a prova.
Dárcio de Carvalho foi alvo de um mandado de prisão preventiva na última terça-feira (17) na Operação Concorrência Simulada. Ele foi preso na capital paraibana João Pessoa e já responde a diversas ações penais referentes ao mesmo tipo de atividade criminosa, incluindo fraudes em concursos públicos e integração em organização criminosa.
Operação Concorrência Simulada
Na operação da PF foram cumpridos ainda 11 mandados de busca e apreensão. A Polícia Federal informou que as prisões foram executadas em João Pessoa e os mandados de busca e apreensão resultaram na apreensão de celulares, notebooks e tablets. Além de Dárcio de Carvalho, foi preso Flávio Luciano Nascimento Borges, também funcionário da Caixa Econômica.
Conhecido como “Panda/7777”, Flávio aparece em conversas com outros investigados, recebendo imagens de provas e participando do repasse de gabaritos, indicando atuação coordenada no esquema. A decisão judicial destaca que Dárcio e Flávio são apontados como integrantes ativos de um esquema de fraudes em concursos públicos e têm envolvimento reiterado em fraudes, o que levou o juiz a considerar risco de continuidade criminosa e, por isso, decretar suas prisões preventivas.
Envolvimento de autoridades
O delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, também é investigado e foi alvo de mandado de busca e apreensão. Segundo a decisão, o delegado é suspeito de pressionar a família que chefiava o grupo criminoso para garantir vantagens ilícitas para familiares serem aprovados em concursos.
O g1 entrou em contato com o delegado-geral da Polícia Civil, a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) e também a Polícia Civil do estado. A SSP-AL disse que só vai se pronunciar quando for formalmente informada dos acontecimentos. O delegado e a Polícia Civil não responderam até a última atualização desta reportagem.
Outros envolvidos no esquema
A decisão aponta que Waldir Luiz de Araújo Gomes, servidor do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), também teve papel relevante no esquema de fraude em concursos, sendo identificado como “Mister M". A Justiça aponta que ele atuava como coordenador de local de prova dos concursos, o que permitia acessar e violar malotes, obtendo provas antes da aplicação e repassando ao grupo criminoso.
Ele não foi preso na operação da Polícia Federal, mas teve quebra de sigilo telemático, interceptação telefônica e busca e apreensão decretados. A Rede Paraíba entrou em contato com o TRE-PB sobre o servidor, que respondeu não se pronunciar acerca de assuntos que não foi oficiado formalmente.
Máfia dos concursos com sede na Paraíba
A Polícia Federal descobriu um esquema de fraudes em concursos públicos liderado por uma família de Patos, no Sertão, que cobrava até R$ 500 mil por vaga. No ano passado, no âmbito dessas investigações contra o grupo, uma operação da PF cumpriu mandados de busca e apreensão, além de prender o líder do grupo, para desarticular a organização. Esse chefe, inclusive, morreu na Paraíba, no ano passado.
O grupo usava tecnologia para burlar os sistemas de segurança das bancas, incluindo dublês, pontos eletrônicos implantados cirurgicamente e comunicação em tempo real durante as provas. Os valores exigidos variavam conforme o cargo e o grau de dificuldade do concurso e, além de dinheiro vivo, o grupo aceitava pagamentos em ouro, veículos e até procedimentos odontológicos como forma de quitar a propina, segundo a investigação.
A investigação indica que os crimes já aconteciam há mais de uma década. Durante todo o período, o grupo teria vendido aprovações, corrompido agentes de fiscalização e utilizado mecanismos sofisticados de fraude e falsificação para garantir cargos de alto escalão. Segundo a PF, as fraudes alcançaram concursos da Polícia Federal, Caixa Econômica Federal, Polícias Civil e Militar, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Banco do Brasil e até o Concurso Nacional Unificado (CNU).



