Cancelamento de Encontro entre Tarcísio e Bolsonaro Expõe Tensões no Bolsonarismo
O encontro previsto entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, terminou em recuo e constrangimento político, após ser cancelado de última hora. Uma conversa que havia sido autorizada pelo Supremo Tribunal Federal e chegou a ser agendada foi abortada, revelando sinais claros de que serviria para pressionar o governador a se engajar diretamente na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
O Que Levou ao Cancelamento?
De acordo com análises do programa Ponto de Vista, apresentado por Marcela Rahal, o episódio demonstra o grau de tensão interna no campo bolsonarista e a dificuldade de alinhar interesses eleitorais distintos às vésperas da disputa presidencial. Segundo o editor José Benedito da Silva, Bolsonaro pretendia reforçar que a pré-candidatura de Flávio à Presidência "é para valer" e exigir do governador paulista um apoio mais firme.
O pedido incluiria não apenas declarações públicas, mas o engajamento direto de Tarcísio na campanha presidencial, além da construção de um palanque robusto em São Paulo para impulsionar o desempenho eleitoral do primogênito. No entanto, declarações públicas de Flávio Bolsonaro anteciparam o teor da conversa, fazendo Tarcísio perceber o risco político do movimento.
Divergências Estratégicas no Bolsonarismo
O cancelamento ocorreu após o governador "sentir cheiro de cilada" e optar por adiar a visita, alegando compromissos oficiais. Isso expõe uma clara divisão estratégica dentro do bolsonarismo:
- Linha moderada: Defendida por Tarcísio e Michelle Bolsonaro, baseada em negociação institucional e redução do confronto com o STF.
- Linha agressiva: Associada a Flávio Bolsonaro, que aposta no embate direto com a Corte e em um discurso de enfrentamento.
Antes do recuo, circulava entre aliados a hipótese de que Bolsonaro poderia estar disposto a adotar uma estratégia mais moderada, em sintonia com Tarcísio e Michelle. Ambos vinham mantendo diálogo com ministros do Supremo, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, o que resultou, por exemplo, na transferência de Bolsonaro para uma unidade prisional considerada mais adequada.
O Papel Decisivo de São Paulo
A cúpula da campanha de Flávio avalia que o desempenho em São Paulo será determinante para qualquer chance de vitória nacional. Não basta, segundo aliados, que Tarcísio abra mão de disputar a Presidência ou ofereça apoio protocolar: o governador precisaria "arregaçar as mangas" e entrar de cabeça na campanha presidencial.
Ao evitar o encontro, Tarcísio sinalizou que não pretende assumir automaticamente o papel de cabo eleitoral de Flávio. O movimento preserva sua própria estratégia política em São Paulo e indica cautela diante de pressões familiares do bolsonarismo, num momento em que seu nome continua sendo visto como ativo eleitoral relevante.
Risco de Ruptura Maior
Segundo José Benedito, já há aliados de Flávio que defendem, nos bastidores, a ideia de lançar um candidato próprio ao governo paulista caso Tarcísio não se comprometa integralmente com a campanha presidencial. O episódio, portanto, não apenas adiou uma conversa, mas expôs fissuras que podem se aprofundar ao longo do processo eleitoral.
O cancelamento do encontro entre Tarcísio e Bolsonaro revela, assim, um momento crítico para o bolsonarismo, com tensões internas crescendo e estratégias divergentes colocando em risco a coesão do grupo às vésperas das eleições de 2026.