Presidente do BRB se reúne com deputados distritais em encontro tenso e prolongado
O presidente do Banco de Brasília (BRB), Nelson Antônio de Souza, passou mais de oito horas em reunião com deputados distritais nesta segunda-feira, em um encontro marcado por clima tenso e falta de consenso sobre o projeto de lei que prevê a utilização de nove imóveis como garantia do banco. Até as 19h40, a discussão ainda não havia terminado, mesmo após o intervalo para almoço, evidenciando as divergências entre as partes.
Falta de documentos e transparência gera desconfiança
Um dos principais pontos de questionamento dos parlamentares foi a ausência, nos anexos do projeto, do documento com os valores de cada um dos terrenos. As informações só foram conhecidas porque a Terracap enviou os dados diretamente aos deputados, fato que gerou reclamações da oposição durante a reunião. Sem números fechados, os deputados afirmam não haver segurança para analisar o texto.
O deputado Fábio Félix destacou pela manhã que "não há clima" para votar o projeto ainda nesta semana, ressaltando que ninguém confirmou o tamanho do prejuízo no banco. Já o deputado Gabriel Magno (PT) afirmou que o próprio governo admite que o projeto funciona como um "cheque em branco", ao prever uma série de possibilidades para socorrer o BRB que não estão descritas formalmente.
Cenário misterioso e riscos fiscais
Gabriel Magno descreveu o cenário como "misterioso", com indicações de que a dívida seja maior do que o patrimônio do BRB. Ele relatou que o secretário de Economia mencionou a possibilidade de o Tesouro do Distrito Federal entrar na operação, o que poderia elevar significativamente o endividamento do DF. A dívida atual gira em torno de R$ 2 bilhões, mas poderia triplicar caso essa alternativa fosse adotada, sem que fossem explicados os procedimentos.
O deputado chamou atenção ainda para dispositivos já previstos, como:
- Autorização para capitalizar o BRB em até R$ 720 milhões
- Possibilidade de aumento do capital social do banco, que poderia chegar a R$ 8,9 bilhões
Como o GDF é o acionista majoritário, com 53% das ações, teria de aportar cerca de R$ 5 bilhões para manter essa participação ou vender ações no mercado — hipótese que, na avaliação de Magno, abre margem para um processo de privatização.
Críticas à coerência do governo e pressão por votação
Embora o governo tenha afirmado que não há intenção de privatizar o BRB, deputados consideraram contraditório admitir a possibilidade de venda de subsidiárias. Para Gabriel Magno, a alienação de subsidiárias faz parte de um processo de privatização e reforça a falta de coerência do discurso oficial.
Os parlamentares também criticaram o fato de a reunião ocorrer novamente sem a entrega de documentos, comparando o encontro a reuniões anteriores com o ex-presidente do banco, Paulo Henrique, que também ocorreram a portas fechadas. Questionaram ainda por que o projeto precisa ser votado até o fim de março, prazo relacionado à entrega do balanço do banco. A resposta foi que houve um acordo com o Banco Central para antecipar a apresentação do balanço no primeiro trimestre, aumentando a pressão pela aprovação.
Dúvidas na base aliada e alertas sobre o futuro do BRB
O deputado João Cardoso (Avante) reforçou que ainda há muitos questionamentos e dúvidas a serem esclarecidos antes de qualquer deliberação. "Tudo isso tem que ser muito bem esclarecido para que algo possa ser feito", afirmou, destacando a necessidade de punição em caso de ilegalidades.
Já o deputado Joaquim Roriz Neto (PL), da base governista, comparou a situação do BRB à de um "paciente com a perna necrosada". "A situação é cortar a perna", afirmou, ao defender que algo precisa ser feito para salvar o banco. Ele alertou para a possibilidade de privatização do BRB caso não haja avanço nas decisões até o fim do mês, declarando que "se não, o BRB vai falir".
Próximos passos
O tema será discutido no Colégio de Líderes marcado para esta terça-feira, às 14h, quando será decidido se o projeto entra ou não na pauta de votação. A sessão ordinária da Câmara Legislativa está prevista para as 15h desta quarta, mas há chances de que a votação fique para a próxima semana, dado o impasse atual.



