Powell deixa Fed nesta sexta; relembre os principais momentos do mandato
Powell deixa Fed nesta sexta; relembre os principais momentos

Powell deixa o comando do Fed nesta sexta-feira; relembre os principais momentos do mandato

Jerome Powell deixa nesta sexta-feira, 15, a presidência do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, encerrando um período de oito anos marcado por alguns dos episódios mais turbulentos da economia americana nas últimas décadas. Indicado originalmente pelo presidente Donald Trump em 2017 para substituir Janet Yellen, Powell atravessou a pandemia da Covid-19, momentos de inflação elevada, tensões geopolíticas e sucessivos embates políticos sobre a independência do Fed.

Apesar de deixar o comando da instituição, Powell continuará no conselho de governadores do Fed até 2028, movimento considerado incomum para ex-presidentes da autoridade monetária americana. A permanência é vista por analistas como uma tentativa de preservar a autonomia técnica do banco central em meio às crescentes pressões políticas em Washington e de limitar novas indicações presidenciais ao colegiado da instituição.

Da indicação de Trump ao comando do Fed

Quando foi anunciado para o cargo, Powell era visto pelo mercado como um nome de continuidade em relação à gestão de Yellen, mas a escolha de Trump rompeu uma tradição de décadas nos Estados Unidos, já que a então presidente do Fed não foi reconduzida ao posto para um novo mandato. Sem formação acadêmica em economia, Powell destoava do perfil tradicional dos chefes do Fed. Formado em ciência política pela Princeton University e em Direito pela Georgetown University, construiu carreira entre Wall Street e o setor público, com passagens pelo Departamento do Tesouro americano e pelo grupo de investimentos Carlyle, antes de ingressar no banco central em 2012.

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Nos primeiros anos de sua gestão, Powell deu continuidade ao processo gradual de alta de juros iniciado ainda na administração de Yellen, em um momento em que a economia americana apresentava desemprego baixo e inflação controlada. O cenário, porém, mudou rapidamente com o agravamento da guerra comercial entre Estados Unidos e China promovida por Trump.

O “Powell Pivot” e os primeiros atritos com Trump

As tarifas impostas pelos EUA contra a China elevaram as incertezas sobre o crescimento global, aumentaram a volatilidade nos mercados e passaram a pressionar a atividade econômica. Diante desse ambiente, o Fed interrompeu o ciclo de aperto monetário em 2019 e iniciou cortes preventivos nos juros, movimento que ficou conhecido nos mercados como “Powell Pivot”.

A partir dali, a relação entre Powell e Trump começou a se deteriorar. O presidente americano passou a pressionar publicamente o Fed por cortes mais agressivos nas taxas de juros, alegando que o banco central dificultava a expansão econômica do país. Em diferentes ocasiões, Trump fez ataques diretos ao chairman do Fed e criticou a condução da política monetária.

Pandemia e estímulos emergenciais

O maior desafio do mandato, no entanto, veio em 2020, com a pandemia de Covid-19. Para evitar um colapso financeiro e econômico, o Fed reduziu os juros para perto de zero, ampliou compras de ativos e criou programas emergenciais de crédito e liquidez. As medidas ajudaram a estabilizar os mercados e sustentaram a recuperação da economia americana nos anos seguintes.

Analistas avaliam que a experiência traumática da crise financeira de 2008 influenciou a rapidez da resposta do Fed durante a pandemia. Havia receio de que uma reação lenta agravasse ainda mais a paralisação da economia mundial, em um contexto de enorme incerteza sobre a duração da crise sanitária e o desenvolvimento de vacinas.

A inflação recorde e a guinada nos juros

Foi justamente na saída da pandemia que Powell passou a enfrentar suas principais críticas. Em 2021, o presidente do Fed avaliava que a alta da inflação seria temporária, impulsionada por gargalos nas cadeias de suprimentos e pela reabertura econômica. A leitura acabou se mostrando equivocada conforme os preços continuaram avançando, impulsionados também pela recuperação da demanda global e pela disparada dos custos de energia após a guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022.

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Com a inflação americana chegando próxima de 10% naquele ano — maior nível em cerca de quatro décadas — o banco central abandonou o discurso da inflação transitória e iniciou um dos ciclos de alta de juros mais agressivos da história recente dos Estados Unidos. Em pouco mais de um ano, a taxa básica saiu de perto de zero para acima de 5%, em uma tentativa de reancorar as expectativas inflacionárias.

Nos anos seguintes, Powell manteve um discurso cauteloso e defendeu que os juros permaneceriam elevados até que a inflação retornasse de maneira sustentável à meta de 2% perseguida pelo Fed. Ao mesmo tempo, reforçou repetidamente que não havia pressa para iniciar cortes nas taxas diante da resiliência da economia americana e da força do mercado de trabalho.

Mesmo após o forte aperto monetário, a economia americana manteve crescimento resiliente e o desemprego não disparou como muitos analistas previam. O chamado “pouso suave” da economia passou a ser apontado por especialistas como um dos principais legados da gestão Powell, já que o Fed conseguiu desacelerar a inflação sem provocar uma recessão profunda.

Pressões políticas e defesa da independência

As tensões políticas voltaram a crescer nos últimos anos do mandato. Aliados de Trump chegaram a discutir possibilidades de enfraquecer politicamente Powell ou até afastá-lo do cargo, hipótese considerada sem precedentes na história moderna do banco central americano. O debate reacendeu preocupações sobre os limites da influência da Casa Branca sobre a política monetária.

Em resposta às pressões, Powell passou a reforçar publicamente a importância da independência institucional do Fed, afirmando que decisões sobre juros deveriam ser guiadas por indicadores econômicos e não por interesses políticos de curto prazo. A defesa da autonomia do banco central acabou se consolidando como uma das principais marcas de sua passagem pela presidência da instituição.

Saída do comando e transição no Fed

Agora, Powell abre espaço para a chegada de Kevin Warsh, nome próximo de Trump. A transição é acompanhada com atenção pelos mercados, que observam possíveis mudanças na condução da política monetária e na relação entre o banco central e a Casa Branca.